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O melhor elogio que já recebi

Sei elogiar. Faço-o quando sinto. Quando acho que as pessoas merecem. Quando percebo que fazem e agem por amor. Sem interesse. Com o coração. Posso não ter ligação, não ter amizade, mas se reconheço, sou capaz de o dizer.

Os melhores elogios que recebi foram de dois homens. Em duas situações diferentes da minha vida. Curiosamente, duas pessoas que não se conhecem. Separados por mais de 10 anos.

Foi uma vez, no fim de uma emissão, ainda no meio de toda a confusão, quando os níveis de adrenalina estão bem lá bem no alto. Estavamos todos a começar a descomprimir. Não sei como começou a conversa. Não sei como chegamos ali. Estou a ver a expressão, estou a ouvir as palavras. E, assim, sem mais, ele diz “Quando és tu quem está no ar estamos todos muito descansados“. Eu petrifiquei. Depois emocionei-me. Ele fugiu. Eu ‘estava no ar’ há muito pouco tempo. Nem sei se ainda se lembra de me ter dito isto mas acredito que sim.

Da outra vez, foi durante uma troca de mensagens. Sobre a vida, a minha doença, o trabalho, as limitações da vida, livros, política, pessoas. Sim, falamos mesmo sobre isto tudo, a qualquer hora, em qualquer momento. Ao mesmo tempo. A contabilidade dos dias de conversa estava já bem para lá dos 100. E assim, no meio daquela amálgama toda, surge a frase… “Gostava que a minha filha fosse como tu, quando crescer“. Tenho a certeza que a emoção de quem as escreveu foi tão grande como a minha, ao ler. Não me lembro da resposta que dei. Acho que não foi preciso dar nenhuma, em concreto. Quando as pessoas se gostam, quando se têm no coração, quando sabem de onde vêem e ao lado de quem caminham… não são precisas muitas palavras.

Por isso vos digo… “As jóias bonitas, o sorriso luminoso, a roupa gira, os sapatos distintos”… são coisas boas de se ouvir mas tão relativas. São só coisas.

As duas frases acompanham-me todos os dias. Quando tenho dúvidas do que posso ser ou de onde consigo chegar… lembro-me delas. Nos dias maus, lembro-me delas. Nos dias felizes, lembro-me delas. E, assim, nunca me esqueço do que sou.  

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7 Maravilhas

Quando sabemos o que somos, de onde vimos, onde pertencemos não há grandes dúvidas sobre as opções que tomamos. Foi isso que me levou a aceitar este convite da Câmara Municipal de Constância para ser madrinha do concelho nas edição das 7 Maravilhas à Mesa.

Aprendi a nadar nas piscinas do Campo de Instrução Militar de Santa Margarida, nadei nas águas geladas do Zêzere, atravessei o Tejo de barco inúmeras vezes, esfolei os joelhos na Quinta do Lombão, cresci a comer peixe do rio e a broa de milho que a minha avó Esperança comprava ao Sr. Henrique, o padeiro que passa todos os dias.

Hoje já não há broa. A avó Esperança já não olha por cima dos óculos, o meu pai já não pesca no rio mas eu volto sempre aqui. Por que a essência não se perdeu. Nunca se perde. E porque as pessoas contam sempre mais. Triste de quem ainda não percebeu isto.

Em Alijó (viagem grande) a mesa de Constância não passou à final. Valeu a pena participar. Também não há muitas fotografias, ficou tudo reservado na memória que os programas em directo não são amigos dos telemóveis.

Obrigada a todos! Ao Presidente da Câmara Municipal de Constância, Sérgio Oliveira, meu amigo há quase 30 anos, ao grupo que nos acompanhou e à produção da RTP.

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Sorria, está a ser filmado

Alguém pensa nos dias maus?

Alguém pensa no que custa levantar a cabeça, inspirar e falar?

Alguém pensa que sorrir… pode custar tanto? Encarar as pessoas, a família, o público, o chefe, o país, a audiência.

Alguém alguma vez pensou que esse é um dos maiores desafios desta vida?

Sorrir. Devia ser tão simples, tão natural, tão espontâneo, tão generoso.

Alguém alguma vez calçou os sapatos do outro? O maior acto de humildade- colocar-se do outro lado. Sentir o que se sente. Sentir as pedras todas do caminho.

Alguém alguma vez pensou que se daria a vida para não ter de sorrir ali, naquele instante, naquela situação?

Às vezes… ninguém sabe. Ninguém imagina o que custa sorrir, apenas.

 

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Vá pelas escadas

34. São 34 degraus desde a entrada do prédio até à entrada da minha casa.

Um dia decidi que ía usar o elevador apenas nos dias em que os sacos de compras pesam demais até para uma corajosa como eu ou quando venho de casa da mãe e trago tudo e mais alguma coisa.

Dizem os especialistas que são precisos 21 dias para criar um hábito, para que corpo e mente se habituem a uma rotina. Outros estudos revelam que ao fim de 6 meses a praticar exercício físico, as pessoas estão mais aptas para tomar decisões. Acredito que sejam mais, especialmente naqueles casos em que se sente dor, física ou emocional, por qualquer tentativa de mudança. Mas não os ponho em causa.

Subir e descer estas escadas funciona para mim como o momento de reflexão, do que já fiz e ainda falta mas principalmente, mostra-me evolução. Prova-me que depois de um há sempre o outro. Que a evolução é possível, que há sempre um lanço de escadas pronto a ser percorrido, até ao nosso patamar. Até chegarmos à nossa porta. Se eu quiser chegar à minha porta tenho de os subir, não há hipótese.

Mas lembra também que todos os prédios têm um último andar. Que não vale a pena correr escada acima, que tudo acaba. Tudo tem um limite. E até o conseguimos ver, cá de baixo.

Em Nova Iorque os prédios até 7 andares não têm elevador. Em Portugal, esta é das primeiras características que procuramos, logo a partir do 2º andar. Acho maravilhoso.

O caminho pode ser sofrível, nos primeiros dias será, seguramente. Depois, as pernas habituam-se. Os olhos já não espreitam a porta do elevador. E já nem nos lembramos de como se faz.

34 degraus.

Passaram 8 meses desde que comecei a fazê-lo.

Às vezes, quando entro no elevador, nem sei qual o número do meu andar.

 

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Saber sair antes do fim

Saber sair.

Uma virtude maior que saber dizer ‘não’, ainda que as duas se unam.

Perceber.

Quando estamos a mais, quando a nossa presença já não faz qualquer sentido, estar ou não é igual, é banal, é hábito.

Quando o nosso amor já não significa nada, já não move nenhuma montanha, já não resolve o indecifrável, já não faz a diferença nos dias maus, aqueles em que só queremos voltar a casa.

Quando não nos procuram, não buscam nos detalhes, nas mensagens de telemóvel ou no registo das ‘chamadas efectuadas’ o nosso número até já não aparece há tantos dias.

Quando não querem o nosso abraço, não procuram o nosso refúgio, o nosso calor, o nosso fôlego, as nossas palavras.

Quando a vida já não faz sentido connosco, o futuro já não aponta para aquela direcção, o pensamento já não vai mais além.

Quando uma tarefa já não nos preenche, não nos motiva, pesa, é dor, causa muito sofrimento, mesmo que seja o sonho de uma vida.

Quando as campainhas soam, quando os alertas disparam e nós ignoramos, ignoramos e voltamos a ignorar.

Até ao dia em que o Mundo cai, o corpo cede e a mente não ajuda.

Deixa ir. Entregar. A lucidez.

Quando é preciso saber sair antes do fim.

Perceber que uma vida, uma tarefa, um ciclo acabou. É, provavelmente, das questões mais aterradoras, para mim.

Respirar, levantar a cabeça e seguir, qualquer que seja o destino, qualquer que seja a previsão, não importa o caminho. Importa é a certeza, a fé de que tudo começa e acaba. Menos o amor, que tudo pode. Mas não chega.