Imagem

5 perguntas a Ruben Alves

Domingo foi a ante-estreia do documentário “As Vozes do Fado” realizado por Christophe Fonseca e Ruben Alves, que dirigiu “A Gaiola Dourada”.Conversei com o Ruben, no final sobre esta música tão portuguesa.

 

1- Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre fado?

Surgiu do convite que me foi feito pela Universal (editora) para fazer um disco sobre o fado e eu então fui ter com a nova geração, quem eu achava engraçado cantar os temas da Amália e de repente pensei ‘eu vou estar com eles mas porque é que eu não pego na minha câmara e vou pelas ruas e peço para me falarem do fado?’. Achei super interessante do que se está a passar agora, esta nova geração de jovens, um bocado ‘in’, que ouve electro mas que ao mesmo tempo sentem o fado. Há uma sequência no início onde estão uns jovens guitarristas que são todos super punk, jovens de 18 anos, 20 anos, super punk e ao mesmo tempo gostam do fado e estão a tocar viola como se fosse uma guitarra eléctrica. Acho isso maravilhoso e deu-me vontade de dizer ‘espera lá, vou mostrar isso’. Mas não só! Obviamente que depois dentro do fado queria também uma credibilidade e fui ter com o prof Rui Vieira Nery para ele perceber e quando ele me disse ‘espere lá, houve o fado dançado, a influência de África’. Fiquei pasmado e fui ter com os miúdos dos arredores, vindos de África que me diziam que não sabiam o que era o fado mas agora estavam a perceber. Acho isso fantástico!

2- Faz sentido mostrar o fado mas também explicar as origens?

Exactamente. Mas ao mesmo tempo pensei ‘será que as pessoas não estão já fartas de fado? E não sabem já isto tudo de cor?’ E afinal apercebi-me que há muita gente que não sabe das origens, de onde vem… se alguma coisa perceberam melhor é espectacular.

3- É um documentário sobre o fado ou sobre Amália?

Não, é um documentário sobre o fado. Agora, há uma parte, uma homenagem, obviamente à diva, aquela que foi arrebatadora que levou o fado para o mundo. Acho super interessante por exemplo ver um rapaz como o Vhils que hoje em dia está no mundo inteiro a trabalhar o seu street art aceitar o desafio que eu lancei para por uma Amália em calçada, na parede. E de repente ele disse ‘sim, tem tudo a ver, eu sou urbano, o fado é urbano, faz todo o sentido. Vamos fazer’.

4- E faltou alguma coisa aqui?

Falta imensa coisa… o problema é escolher para 1h20, tentar pôr tudo, de vez em quando é só um cheirinho de alguma coisa, de alguma pessoa, mas não podia… o fado nunca mais pára, há muitas pessoas que eu gostava de ter tido mas não estavam livres, não se podia e eu não podia filmar durante 2 anos. Filmei alguns meses, ía e voltava mas senão teria de ser feito um documentário sobre 5 anos e eu não podia fazer isso. Havia muitas coisas para se fazer, por exemplo, falar com a Björk que quando está a pôr música e põe Amália, a voz da Mariza… gostava de perguntar o que sente ao fazer isso.

5- E o fado uma palavra?

Numa palavra? Fiz tanto essa pergunta a toda a gente… a Mariza diz ‘não há uma só palavra, há muitas’ para descrever o que é o fado. Eu se calhar diria portugalidade. Quando se percebe fado  percebemos a alma portuguesa.

 

 

Quem não se lembra d’ “A Gaiola Dourada”? Rimos todos até mais não, não foi? Pois foi. Por ter sido tão bom, as expectativas em relação a este “As Vozes do Fado” era alta. Por isso e porque já tinha visto uma compilação de imagens recolhidas no estúdio onde Amália gravava “à primeira”, como lembra no documentário a irmã Celeste.

Eu adoro fado. Sou muito suspeita, para mim 1h20 passou a correr, era capaz de ver o dobro. O Ruben Alves pediu a cada fadista uma viagem a um local que considerassem especial. Há de tudo: Caixa Alfama, Museu do Fado, Largo da Severa, Coliseu dos Recreios, uma tasca no Porto, uma viagem pela Ajuda… e depois há os fados… que valem tudo. Sabemos todos, todos, todos, Amália já os eternizou. Mas, para mim, o momento mais inusitado é aquele em que Vhils mostra uma parede composta por pedras da calçada, onde se vê a imagem de Amália e diz: ‘faz todo o sentido, Amália faz chorar as pedras da calçada e entretanto… deve chover’. É de arrepiar, rir, emocionar, do início ao fim.

O Ruben Alves e o Christophe Fonseca têm uma edição irrepreensível e o documentário uma qualidade de fotografia incrível. Não percam a oportunidade, assim como eu não deixei o Ruben ‘escapar’, só ía assistir e decidi depois que tinha de registar o momento. O realizar estava feliz pelo sucesso do documentário e eu em êxtase por voltar a ter um gravador nas mãos! É tão bom ser jornalista e estar no sítio certo, à hora certa  (ainda que com coisas/assuntos muito simples).

P.S.- ‘Definir fado numa palavra’ foi um pedido feito a todos os intervenientes no documentário. Achei por bem devolver a pergunta ao realizador. Vão poder confirmar quando chegar ao circuito comercial, depois de cumpridos compromissos contratuais. Tem co-produção TVI.

 

Imagem

Entretanto, de Bruxelas…

… além do frio de bater dente, chegam fotografias de (poucos) cidadãos espanhóis que celebram os 39 anos da Constituição, referendada em 6 de Dezembro de 1978. As bandeiras das várias regiões confundem-se e ocupam o mesmo espaço, entre manifestantes. Espanha vive um impasse com a Catalunha a ir a votos no próximo dia 21 e com os principais rostos fora da região e do país e a fazer campanha, à distância.

Se esta campanha correr bem, Espanha consegue (mais) um assunto de análise. Estou ansiosa para ver!