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The final Web Summit

 

No balanço da Web Summit tem de constar um GRANDE APLAUSO para as mulheres:

Nesta cimeira:

  • metade das pessoas registadas era do sexo feminino
  • 35,4% dos oradores foram mulheres
  • O espaço ‘Women in Tech‘ recebeu 58% de participantes do sexo feminino

Números bastante simpáticos e que vêm provar que afinal as mulheres também se destacam na indústria do digital e que se querem posicionar, cada vez mais (o Mundo continua sem saber quem será a sucessora de Zuckerberg, apesar de já me ter disponibilizado para tal…). Tenho para mim que a sensibilidade feminina pode ser uma mais-valia para esta indústria, no sentido de afinar pormenores, de difundir mensagens e até de negócio: as mulheres estão sempre cheias de ideias, encontrei muitas nos pavilhões, a ‘vender’ startup.

Mas há mais números…

  • 59,115 pessoas de 170 países estiveram em Lisboa.
  • 2,600 meios de comunicação de todo o Mundo falaram da Web Summit.
  • A quantidade de cabo utilizada dava para escalar o Monte Evereste 8 vezes (80 mil quilómetros)
  • Mais de 205 mil copos recicláveis foram utilizados durante a cimeira.
  • Centre Stage foi composto por 314 reservatórios de água, 140k focos de projeção e 30,000 watts de som.
  • 2.2 milhões de sessões de wi-fi foram registadas durante todo o evento.
  • 45 terabytes de tráfego durante os vários dias.
  • Mais de 2,100 startups estiveram presentes.
  • 1,400 dos mais importantes investidores do Mundo estiveram em Lisboa.
  • 1,200 oradores.

Até o astronauta Paolo Nespoli enviou uma mensagem muito especial do espaço. Podem ver aqui https://media.websummit.com/press-releases/web-summit-is-out-of-this-world

 

Quem ainda acha que a tecnologia não pode fazer nada pelo Mundo e pela Humanidade devia ter escutado Al Gore. Polémico, pertinente, certeiro. Al Gore até rezou em palco para que os Estados Unidos da América (EUA) escolham outro presidente em 2020 (apesar de haver uma sondagem a mostrar que fariam exactamente o contrário, um ano depois), criticou o Reino Unido pelo Brexit e lembrou que os EUA ainda são responsáveis pelo que assinaram no Acordo de Paris e que estão sempre a tempo de voltar atrás… depois de Trump sair. Por um lado, Al Gore não deixou passar a responsabilidade que o seu país tem nas alterações climáticas mas não deixou o Mundo descansar porque a responsabilidade é de todos e está ao alcance de todos. Afinal, como explicou de forma tão simples… a camada de ozono é tão fina que se a quiséssemos percorrer de carro demorávamos entre 5 a 10 minutos.

Minutos depois, com a energia de sempre mas pouca voz, o Presidente da República lembrava que Portugal não estava fora do Acordo de Paris e que mantinha a sua responsabilidade e, também por isso, devia continuar a receber a Web Summit, além de 2018.

Se Portugal merece? Nem pode haver dúvidas.

Deixo mais imagens que registei ontem. O espaço, os voluntários e as muitas dúvidas que o digital suscita.

 

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Falhem, por favor.

“Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.” – Samuel Beckett

Quantas pessoas de sucesso conhecem? Dessas, quantas falharam antes de conseguir alguma coisa? Imensas, aposto. Dados do U.S. Commerce Department, Small Business Administration mostram que 40% dos negócios falham por excesso de optimismo na previsão das perdas, cerca de 20% por falta de competitividade do produto ou serviço e 12% por custos excessivos na fase de arranque e no seu ciclo de vida e 8% por falta de controlo dos objetivos e da cobrança de rendimentos. O mundo moderno  está cheio de pessoas que somam insucessos, antes da glória. Felizmente. De resto, os negócios modernos são muito caracterizados por isso, também. Ontem ouvi dois antigos pugilistas, na Web Summit, que falavam exactamente disso. Da capacidade de resistir perante o falhanço, um deles até perdeu o último combate da carreira de 21 anos. E depois, com imensa graça, lembrou o grande falhanço de Cristóvão Colombo: queria descobrir a a Índia e acabou por encontrar a América. Grande azar, não acham?

 

Essa característica, o falhar, marca também a história de um grupo de rapazes que conheci ontem. São donos de uma startup que é uma plataforma de software para empresas ligadas à veterinária. O Luís Pinto, o CEO, explicou-me que a ideia surgiu numa altura em que tinha tempo e quis ajudar associações de animais. Desenvolveu um projecto e contou com a ajuda do Vítor Martins e perceberam que podiam fazer mais qualquer coisa… juntaram-se num verão e durante todo o mês de Agosto foram à procura de fragilidades desta área.

Desenvolveram um projecto, falhou.

Desenvolveram outro, voltou a falhar.

Desenvolveram o terceiro,  e aqui estão. O Luís disse que tinha definido, mentalmente, que este seria o último. A sorte (que dá tanto trabalho…) e a resiliência funcionaram.

A eles juntou-se também o Nuno Carvalho. Têm entre 26 e 31 anos. Por esta altura, em que vos escrevo, já devem ter um stand preparado em Barcelona, porque foram participar numa feira empresarial. Encontrei-os ontem porque me enviaram  uma mensagem através da app da Web Summit, que permite relacionar (ainda mais) os participantes. Eu não tenho animais de estimação mas achei que, pela atitude, valia a pena conhecê-los.

Não me arrependi.

 

Não quero acabar esta ‘ronda’ pelo dia de ontem sem vos dizer quem também ‘apareceu’ por lá. Steve Jobs, um dos fundadores da Apple. O grande mentor, inspirador de pessoas em todo o mundo, faz e fará sempre parte do futuro. Alguns autores consideram que a revolução tecnológica é ‘americanizada’. Jobs é, seguramente, um dos grandes responsáveis por isso.

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Web Summit

Há umas semanas recebi uma mensagem de um querido amigo que perguntava: “A 4a Revolução Industrial ou 4.0, a Inteligência Artificial, a Robótica, os Intangíveis e o Motor Impossível (NASA)  põe em causa o paradigma actual e as leis da ciência e da física? Concordas?”. Respondi: “Não, acho que as máquinas não põem nada em causa. O que está em causa é o que se faz com elas, A responsabilidade é de quem programa, de quem projecta, investiga. As máquinas servem para ajudar no desenvolvimento da Humanidade. Facilmente se perde o controlo se não houve a clara noção e certeza do lugar onde se quer chegar”.

Ontem, Stephen Hawking disse na abertura da Web Summit que “a inteligência artificial pode ser boa ou má. depende dos humanos”. Não podia estar mais de acordo.

Dois robots estiveram à conversa na Web Summit, hoje, para espanto de muitas pessoas. Na verdade, falou-se muito de Inteligência Artificial (AI) ao longo do dia. Destaco a ajuda que a AI pode dar na identificação de crianças desaparecidas, através de reconhecimento facial. O sistema está desenvolvido nos Estados Unidos mas o objectivo é que chegue a todo o Mundo.

Brian Krzanich, CEO da Intel, explicou as vantagens de milhões  de dispositivos estarem conectados, ligados em rede, para o desenvolvimento da IA.

 

Enquanto isto… 2.500 jornalistas trabalhavam como podiam, na Media Village.

A minha passagem pela Web Summit foi rápida, hoje, mas ainda deu para descobrir a TICO, uma app de mensagens que tem como objectivo filtrar as mensagens que recebemos, de acordo com o local onde nos encontramos. Ou seja, se definirmos o local para “trabalho“, a app só aceita mensagens de quem está associado a esse grupo. Se chegamos a casa, e mudarmos a localização para “casa”, a app passa a receber mensagens de amigos e família. O objectivo é, além de filtrar, ajudar-nos a focar nas várias tarefas que precisamos desempenhar. Não estou a inventar se disser que TODOS perdemos tempo a mais nas redes sociais quando devemos estar mais focados no trabalho, certo? Eu sei que não me deixam mentir!

Além de ter achado a ideia curiosa (a minha forma de evitar é esquecer o telefone durante umas horas), a pessoa responsável por esta app vem de Taipei, Taiwan, do outro lado do Mundo. Isso demonstra bem o carácter universal desta cimeira. Mais, foi a única pessoa, de todas as startup que vi, que se dirigiu a mim para me convidar a conhecer o seu negócio. Este género de nova economia vive muito da capacidade de a comunicar às pessoas, aos investidores, ao público, em geral. Está disponível para download.

 

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Globalização, empresas e borboletas

“Num mundo globalizado, o bater de asas de uma borboleta na Amazónia bastaria para desencadear um terramoto no Texas”.

A frase do matemático Edward Lorenz não podia fazer mais sentido nem estar cada vez mais perto da realidade. Mas é preciso perceber o que é a globalização. Esta palavra que anda na boca de toda a gente, ainda mais nestes dias de Web Summit em Lisboa (um dos evento mais importantes para o país, já lá vamos).

Globalização pode ser tanta coisa… que fiquemos por estas duas possibilidades: “significa ligar as acções e os destinos de cada indivíduo, organização complexa- seja ela uma sociedade comercial ou uma universidade- e comunidade, por exemplo, a uma nação, às de outros indivíduos, organizações e comunidades” (Bonaglia e Goldstein, 2003). Zygmunt Bauman é mais pragmático e tem a definição que pode reunir o maior número de adeptos: “a globalização é a desvalorização da ordem enquanto tal”, era/é vista fundamentalmente do ponto de vista mercantil.

No entanto, é a definição de Anthony Giddens que, talvez, mais faça sentido: “a globalização significa a intensificação das relações sociais à escala mundial de tal forma que faz depende aquilo que sucede a nível local de acontecimentos que se verificam a grande distância e vice-versa”.

Voltamos à borboleta, certo?

Outros autores que defendem que a globalização é apenas uma versão moderna do colonialismo. O principal argumento desta ideia analisada, por exemplo, por Martin Khor, é a existência de normas, acordos e instituições que vêm definir, fora dos espaços restritos de cada Nação, as regras comuns de cada processo.

Eu acredito que a globalização e a tecnologia andam de mãos dadas. Concordo muito com Thomas L. Friedman do The York Times (já falei dele no post sobre os avanços tecnológicos do anos de 2007) quando diz que “ a inexorável integração de mercados, estados-nações e tecnologias a um nível nunca antes atingido, com a consequência de permitir aos indivíduos, às empresas e aos estados-nações estender a própria acção por todos o mundo mais rapidamente, mais profundamente e com menor custo do que alguma vez foi possível anteriormente”.

A globalização vem aproveitar os sistemas de ligação que nasceram com a 3ª Revolução Industrial (3ª RI) mas que, com a 4ª Revolução Industrial (4ª RI) aproveitaram a transição que cresceu desse processo. Novo, aqui, é a capacidade de estar num canto do mundo, a fazer negócio com outro canto.

Dou-vos um exemplo muito simples: em maio desenvolvi uma reportagem sobre a 4ª RI e as várias áreas em que estava a ser aproveitada em Portugal. Falei com muitas pessoas, conheci muitas realidades que me deixaram fascinada; uma empresa em Câmara de Lobos, na Madeira, altamente tecnológica, que faz a gestão de parques de estacionamento de Portugal inteiro e de Espanha e gere o recrutamento de algumas das autarquias mais importantes do país. Tudo, a partir da ilha, com poucas dezenas de trabalhadores mas com recursos humanos altamente dotados e tecnologia da mais desenvolvida a nível nacional. E depois, um escritório de advogados bem no centro de Lisboa, onde já praticamente não se utiliza papel, todos os dados são armazenados em cloud, disponíveis em qualquer lugar, desde a rua à sala de audiências, em qualquer parte do mundo.

O que se está a negociar por estes dias na Web Summit, em Lisboa, é este conhecimento, são estas oportunidades, são estas formas de fazer avançar a humanidade para que possa viver melhor, de forma mais saudável e exequível.

No ano passado estiveram representadas em Portugal 1.490 startups de todo o mundo, mais de 1.330 investidores (ainda hoje ouvi num canal de televisão uma senhora a dizer que tinha vindo da África do Sul), 677 oradores e 2 mil jornalistas. Foram precisos 3 7mil quilómetros de cabos de fibra, o suficiente para subir o Monte Evereste quatro vezes. A organização revelou que estiveram em Lisboa 53.056 pessoas, de 166 países diferentes. Este ano são 60 mil participantes.

As transmissões via Facebook chegaram a 4 milhões e foram trocadas mais de 1,8 milhões de mensagens.

Não é difícil de acreditar que a receita deste ano seja projectada em 300 milhões de euros.

Ah, e este ano, a Web Summit vai contar com 2 oradores robot. Um dos robots chama-se Sophia, tem forma humana, capaz de recriar uma série de expressões, identificar e reconhecer rostos e manter conversas fluídas.

Curiosos? Eu também.

 

(Imagens: Google)

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Imagem do dia

Bem sei que que a imagem que marca a actualidade é a do buraco na camada ozono, que não estava tão pequeno desde os anos 80. Uma notícia fantástica!!!! Mas permitam-me partilhar esta, que acho não menos espectacular: São várias imagens da superfície do Sol até à sua atmosfera, todas registadas ao mesmo tempo, na semana passada, no dia 27 de Outubro.

Está tudo aqui em www.nasa.org

Bom fim de semana!

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‘A violência…

‘… é a parteira da História, significa que as forças ocultas do desenvolvimento da produtividade humana, na medida em que dependem da livre e consciente acção do homem, só podem ver a luz do dia graças à violência das guerras e das revoluções’.

 

(Fonte: Pau Barrena/ AFP)

 

‘Só nesses períodos violentos é que a História mostra o seu verdadeiro rosto e dissipa a névoa de um palavreado hipócrita, que não é senão ideologia’.

 

(Fonte: DR)

 

‘A violência é tradicionalmente encarada com a ultima ratio nas relações entre nações e como a mais nefasta das acções internas de um país tendo sido desde sempre considerada como o mais notório atributo da tirania’.

Hannah Arendt.

 

Referência:

Arendt, Hannah  (2006), Entre o passado e o futuro, Relógio D’Água Editores, Sta. Maria da Feira.

(Título original ‘Between the past and the future’ , 1961)

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5 perguntas a Margarida Vieitez

Por coincidência  (ou talvez não), esta entrevista é publicada hoje, dia em que este assunto da violência doméstica volta às primeiras páginas de todos os jornais.

1- Estás surpreendida com esta decisão do juiz desembargador do TRPorto? Porquê?

Sinto um misto de surpresa e choque. Surpresa, porque existe uma parte de mim que quer acreditar que não vivemos no Submundo, que Portugal é um País civilizado, que a magistratura judicial é isenta, credível, merece o nosso inteiro respeito e que Acordãos destes não existem, e a existirem, por mera distracção, são previamente discutidos, ou apenas existem noutros universos, noutros planetas e são elaborados por civilizações pré-históricas com profunda influência Árabe.

Mas, se por um lado continuo a surpreender-me com estas “noticias do Além”, por outro, o impacto e o choque que as mesmas provocam em mim é cada vez maior, pois intuo que este Acordão é apenas “a ponta do icebergue” de uma realidade não virtual, mas bem real, que é a forma como os casos que envolvem violência doméstica ( seja ela emocional, psicológica ou física) são perspectivados. Isto é, como se olha para a Violência Doméstica em Portugal?

Acredito que este Acordão seja único e ímpar pois os seus fundamentos, baseados na mentalidade que vigorava há mais de 120 anos, em passagens bíblicas referentes a práticas que existiam antes mesmo de Jesus Cristo vir à terra e que o próprio Jesus condenou, considerando o adultério da vitima para atenuar a culpa do arguido e influenciar directamente a medida da pena, é algo, espero eu, irrepetivel na justiça Portuguesa, pois esta, como toda a gente sabe, é uma argumentação que viola a constituição, viola princípios e direitos internacionalmente consagrados e é completamente inaceitável num Estado de Direito.

A forma de olhar e VER a violência doméstica tem definitivamente de MUDAR, e essa mudança tem que ser feita aos mais diversos níveis, a começar pelas mentalidades. O sofrimento das vitimas merece toda a atenção, tempo e cuidado, e este não é um problema que se resolva apenas com a apresentação de queixas e decisões judiciais. Em muitos dos casos envolve não só adultos, mas também os filhos desses adultos que não tem qualquer culpa. Exige a tomada de muitas medidas, que vão desde a Prevenção da Violência até muito tempo depois da violência ter cessado, pois as suas múltiplas sequelas psicológicas assim o exigem.

Este GRAVE PROBLEMA, à semelhança da corrupção, da mendicidade, da doença mental que prolifera, do divórcio que não pára de aumentar… não é um problema dos outros, é um problema de TODOS NÓS que pode vir a atingi-lo também a si, à sua família, aos seus amigos! É um problema dramático que está a tomar proporções inimagináveis, com consequências desastrosas, e Acordãos destes apenas descredibilizam a Justiça, e em certa medida podem servir mesmo de incentivo ao surgimento de um cada vez maior numero de casos de violência doméstica.

2- A sociedade está mais permeável ou mais intolerante à violência?

Gostaria de afirmar que está mais intolerante, mas parece-me estar cada vez mais “anestesiada” e permeável não só à violência física mas também emocional e psicológica. Creio ainda existir uma espécie de “surdismo” e indiferença senão “preocupação congelada” quanto a este problema, especialmente por parte do poder politico.

Estou convencida que à semelhança do que aconteceu com os incêndios, em que só despertaram depois de quase meio Portugal ter ardido, também no que respeita à violência doméstica e às mais de 40 vitimas mortais anuais, pergunto-me se será preciso o numero triplicar para alguém um dia acordar e afirmar: ” Temos uma epidemia de Violência doméstica em Portugal e agora de quem é a culpa?”

Pelos casos que acompanho todos os dias, acredito que senão temos uma epidemia, temos certamente uma virose com tendência a agravar-se. Os casais continuam a pedir ajuda muito tarde, alguns já se agridem há muito tempo, ignoram que tem problemas que não conseguem resolver sozinhos e que precisam de ajuda.
A Mediação Familiar é praticamente desconhecida e a Terapia de casal também. Todos os divórcios, por mútuo consentimento ou litigiosos, regulações das responsabilidades parentais, incumprimentos e alterações das mesmas, deviam passar por uma instância obrigatória chamada Mediação Familiar. Tirar-se-iam milhares de processos dos tribunais. Os Juízes agradeciam e os Advogados também pois estes casos de família fazem-nos desesperar.
Quem está a viver problemas na sua relação, especialmente agressões psicológicas, deveria saber onde recorrer de imediato, em alternativa a uma esquadra de policia, um escritório de advogados ou o tribunal. Se a vitima já se encontra fragilizada, como não se sentirá numa esquadra de polícia ou num Tribunal?
Algumas associações existem, infelizmente muito poucas e com reduzidos recursos. Fazem um trabalho brilhante! Mas esta é uma Obrigação do Estado! E tudo isto respeita à Saúde Mental dos Portugueses, um dos povos da Europa que mais depressões tem e mais ansioliticos e antidepressivos toma.

A responsabilidade é de todos nós e cabe-nos a todos nós não aceitar mais Acordãos destes, mas não só: não fazer de conta que nada está a acontecer quando está a acontecer; Não fazer de conta que vai passar, porque não vai; Não fazer de conta que é um problema dos outros; não fazer de conta que é Amor, porque não é; Não fazer de conta que é culpa sua, porque não é; Não fazer de conta, porque não é uma vergonha é um crime; Não fazer de conta que uma pena leve resolve a situação; Não fazer de conta que não estamos perante doença mental porque estamos e essa pessoas tem que ser tratadas; Não fazer de conta que isto não é um problema muito grave e que compete ao Estado, ao Poder politico e judicial e a todos nós, resolvê-lo.

3- Achas que este tipo de decisões vem dar força aos agressores?

Toda a jurisprudência tem uma influencia relevante e inspiradora e é reflexo não só de mentalidades, da aplicação da lei, mas do conceito da própria Justiça. Ora, se um Acordão vem dizer que a culpa do agressor é atenuada porque a vitima cometeu adultério, e isso tem repercussões na medida da pena, poderia acontecer que em futuras situações semelhantes, este Acordão fosse fonte de inspiração para as mais variadas dissertações sobre a diminuição da pena em casos de adultério, e que de uma forma simples a agressão fosse parcialmente justificada, o que seria senão uma loucura, um ato de total insanidade.

Poderia igualmente, tal como referi, vir a constituir fonte persuasiva não só para a aceitação da pratica de agressão em caso de adultério, como determinar a sua repetição. Uma conduta altamente reprovável e violadora dos direitos humanos passaria a contemplar a excepção adultério, e voltaríamos dois mil anos atrás.
Pergunto-me se fosse o homem a cometer adultério e a mulher a agredi-lo se o Acórdão seria igual, e tenho sérias dúvidas. Provavelmente nem chegaria a Tribunal. E é precisamente isto que devia ter sido tido em consideração: É que muito provavelmente aquela mulher para chegar até ao tribunal, foi agredida muitas mais vezes no passado, nunca apresentou queixa, nem se envolveu com ninguém. Tudo acontece não de um momento para o outro. A violência doméstica também ela é um processo.
Parece-me urgente a reapreciação do crime de violência doméstica e especialmente a medida da pena.

4- O que se pode fazer para acabar com esta realidade?

Deixar de se “brincar às casinhas” com a violência doméstica e passar à fase adulta, À semelhança do que acontece nos outros Países da Europa prevenindo-a das mais variadas formas, designadamente com Grandes Acções e campanhas de sensibilização/Informação, com a criação de Instituições Públicas especializadas neste âmbito, com equipas multidisciplinares de Mediadores familiares e de conflitos, Terapeutas de casal e Psicólogos, com uma educação para os Afectos a começar nas escolas desde muito cedo, com legislação mais punitiva, com formação especifica a magistrados, advogados, agentes policiais, e com sentenças e Acordãos que reflictam que mesmo em caso de adultério, este nunca pode ser causa de desculpa e atenuação da pena porque estamos no século XXI e o que se está a julgar é a agressão, não o adultério.

5- O que é que as vitimas de violência doméstica precisam saber?

Escreveria mais um livro! Mas como não o posso escrever aqui… creio que o poderei sintetizar em ” AS 10 MAIORES VERDADES SOBRE A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA”:

1) Quem a/o agride e manipula não gosta de si e muito menos o ama
2) Violência não é Amor, é Doença Mental.
3) A culpa não é sua, é dele/dela
4) Quem está errado é ele/ela, não é você
5) Quando acontece uma vez, a probabilidade de acontecer outra é de 99%
6) Você não está sozinho. Procure ajuda de imediato!
7) Fazer de conta que não aconteceu nada significa consentir que se repita
8) A violência é um ciclo de sedução-agressão-desculpa-sedução! Quanto mais tempo dura, mais difícil é sair.
9) Confie na sua intuição, nos seus juízos de valor, em si, e afaste-se dessa pessoa enquanto é tempo.
10 ) Você Merece ser Amada/Amado e respeitada/o. O Mundo está repleto de pessoas que sabem o que isso significa. Escolha uma delas para ver as estrelas todos os dias!

 

Esta entrevista foi pedida à Dra. Margarida Vieitez no fim de semana e, tal como está na primeira pergunta, o foco era o acórdão do Tribunal da Relação do Porto. Quis a actualidade que hoje os jornais fossem todos invadidos por um sentença inédita, pelo menos, no que implica figuras públicas, relacionada com violência doméstica. A Dra. Margarida é das pessoas mais defensoras deste debate, deste alerta, desta necessidade que há de se falar de tudo para que o assunto não caia no esquecimento. Nada justifica a violência. Tudo o resto PODE ser questionado, mas a violência não tem nuances, nem pode NUNCA ter.
No verão, a Dra Margarida emprestou-me um livro que se chama ‘Amor Zero’ do espanhol Iñaki Piñuel. O autor diz que em toda a nossa vida se cruzam connosco cerca de 60 pessoas… ‘complicadas’. Demorei um mês a ler, é duro mas altamente eficaz. Parece muito? Façam lá um forward e depois digam-me.

 

A (Dra) Margarida é minha irmã do coração. Tenho a sorte imensa de ter várias, apesar dos meus pais terem optado por me manter filha única. Muito do que tenho aprendido e do que tenho evoluído emocionalmente tem o timbre dela. É das pessoas mais generosas que conheço: não tem tempo, compromisso ou alguém que a ‘roube’ quando quer dar atenção a outra pessoa. A Margarida consegue, no mesmo momento, repreender e ensinar.
Mas nada, nunca, se sobrepôs à profunda admiração que nutrimos uma pela outra, ao respeito com que agimos e à confiança e amizade que jamais perderemos.
A Margarida teve a bondade de me convidar para ser uma das pessoas a apresentar seu último livro. Procurem ‘Verdades, Mentiras e Porquês’, levam um bocadinho do conhecimento da Dra Margarida e da doçura que a minha irmã não consegue (nem deve) disfarçar.

 

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Catalunha e Grécia? Tem tudo a ver.

Carles Puigdemont tentou, na Catalunha, o que Yanis Varoufakis e Alexis Tsipras tentaram na Grécia.

A conquista do povo pelo poder da palavra. Aristóteles falava do homem “animal político”, porque possui a capacidade de dominar o logos, o discurso, a palavra, que tem um peso importante mas que nem sempre é considerada dessa forma. Quem a domina, consegue seduzir, persuadir, convencer, dominar, influenciar, esconder, decretar.

Na minha dissertação de mestrado, em 2015, estudei a Grécia, a estratégia de comunicação do Governo de Tsipras e Varoufakis que enfrentou a troika internacional e quase conseguiu fazer história. O meu estudo tem como título “Europa e democracia europeia no período pós-troika: Limites e estratégias de governação e comunicação nos casos português e grego, em perspectiva comparada”. Não é um título fácil, reconheço, mas o resultado foi profundamente mais interessante e estimulante do que podia alguma vez imaginar. Por isso, partilho convosco algumas das conclusões:

A Grécia podia, de facto, ter alterado o destino dos países intervencionados, os responsáveis puseram em causa as medidas de austeridade até ao limite, obrigaram a gigante Alemanha a pedir tempo de reflexão e análise de várias contra propostas apresentadas no decorrer das negociações com os parceiros internacionais e levaram esses parceiros, até aqui sem oposição, a justificarem-se perante todos os outros líderes europeus. As grandes maratonas negociais, até ao limite físico, foram uma constante em todo o processo e uma forma de pressão sem precedentes, levadas a cabo por um país, apenas um, que ameaçou sair da zona euro e por em causa toda a estrutura da União Monetária. A Grécia obrigou os países da U.E. a colocar os interesses de todos acima dos interesses de cada um, se a saída se tornasse uma realidade isso significaria uma derrota de todos os intervenientes e a ameaça tornou-se tão real que até o Presidente dos Estados Unidos da América interveio no processo”.

Para vos explicar o meu pensamento, recorro de novo, a um pouco do que escrevi:

O governo eleito pelo povo grego, com uma comunicação ambiciosa e moderna, foi ao encontro do que sugeria Weber (1918), até na imagem. Líderes jovens, que se apresentam sem gravata e com uma atitude diferente. A propaganda foi uma arma de comunicação utilizada ao limite. Tal como considera Marcelo Rebelo de Sousa, “Yanis Varoufakis (o Ministro das Finanças grego) é um excelente comunicador, utilizou ao máximo o dramatismo para dar criar a ideia, na Grécia e na Europa, de que as negociações com os parceiros tinham atingido um alto grau de dificuldade” (comentário semanal, “Jornal das 8, TVI, 22 de Fevereiro de 2015). Já antes de ganhar as eleições, o Syriza e Alexis Tsipras assumiam que a austeridade não ia continuar na Grécia e repetiram a ideia até à exaustão, quando o povo já acreditava ser verdade e ser possível uma mudança radical. Graças a esta técnica da repetição incansável do argumento, a ideia ganhou espaço na mente dos gregos e a verdade é que se a eleições se tivessem realizado 15 dias mais tarde, o Syriza conseguiria alcançar a maioria absoluta (de acordo com as sondagens gregas)”.

 

Essa era a ideia do líder do governo Catalão, quando marcou eleições regionais, em início de Setembro, e avançou contra o Governo de Madrid: questionar a soberania e reforçar os poderes regionais que já existem na Catalunha desde o final dos anos 70.

A diferença é que os gregos tinham uma estratégia e os catalães não. Puigdemont pensou que podia contrariar o Governo central apenas com o resultado de um referendo: conseguiu que as pessoas fossem votar (até nem foi difícil, uma vez que 90% dos que votaram disseram ‘sim’ à independência e essa condição é ambicionada há muito por praticamente metade da população); conseguiu que acreditassem nele ( milhões de pessoas saíram às ruas no último mês e as bandeiras da Catalunha estão nas varandas de quase todos os prédios) mas não conseguiu corresponder às expectativas. O Governo Catalão não conseguiu resistir às pressões de Madrid e foi ‘fintado’ pelo artigo 155 da Constituição, que Mariano Rajoy invocou hoje perante ‘situações excepcionais’, depois de ‘um referendo ilegal, sem garantias’. A decisão passou para as mãos do Parlamento Catalão e a confusão está instalada.

Puigdemont não foi previdente, não esteve um passo à frente de Rajoy e ‘esqueceu-se’ que pertencia a uma estrutura. O governo de Tsipras também pertencia à União Europeia mas antes das negociações, o ministro Varoufakis buscou apoios em toda a Europa, andou em cada país a tentar perceber os pontos que uniam e os que separavam dos restantes Estados Membros, ouviu, reuniu-se de notáveis e apoios fortes.

Mais, os gregos conseguiram manipular os media de formar a veicular informações positivas mesmo quando nada havia para dizer, colocaram os outros protagonistas em cheque quando divulgavam informações do que acontecia nas reuniões (quem não se lembra da frase da Directora do FMI: “são precisos adultos na sala”, ao referir-se a Varoufakis?).

Só para terminar…

Já no século XIX havia estudos que defendiam a ideia de que não há pensamento sem linguagem e que um é determinado pelo outro. “O homem vive com os objectos da maneira como a sua língua lhos apresenta” (Humboldt). Patrícia Fernandes diz ainda que “neste sentido, a língua materna surge como força opressora – impõe-se ao nosso pensamento, impondo uma forma de pensar”. E esta questão é ainda hoje lembrada por vários autores como Martin Heidegger “O homem age como se fosse o senhor e mestre da linguagem enquanto que na verdade a linguagem permanece mestra do homem”. Ainda que a linguagem ocupe um lugar fundamental em todo o processo de comunicação, é na possibilidade de alterações que cada individuo encontra o seu espaço individual “que passa pela resistência ao discurso de opressão através da modificação da própria linguagem, das expressões ou das palavras usadas. É nesta liberdade que ainda resta ao indivíduo, de se esquivar à imposição dos discursos, que poderemos encontrar espaço para a concepção de alternativas” (2015: 1-3). Também José Adelino Maltez recorre a Aristóteles para explicar o poder da palavra quando afirma que “conquistar o poder é conquistar a palavra, para se transformar o conceito em preceito, através da imposição de um discurso” 28 (1993: 40). Este foi o espaço que os representantes do Syriza e membros do Governo grego encontraram para tentar mudar a história“.

Acredito que a Catalunha viva mais umas semanas de agitação política e social até às eleições que, entretanto, Madrid deve convocar. Depois disso…  mais nada.

 

Puigdemont desiludiu. E tal como na vida, também na política a desilusão é das piores coisas que podem acontecer.

 

Fotografias: Google e Patrícia Matos

Referências:

Weber, Max, (1904 a 1917), The Methodology of the social sciences, The France Press, 1949.

Fernandes, Patrícia (2015), Syriza, apenas uma questão de semântica?, Universidade do Minho.

Maltez, José Adelino (1994), Sobre a ciência política, ISCSP, Lisboa.

Matos, Patrícia (2015), Europa e democracia europeia no período pós-troika: Limites e estratégias de governação e comunicação nos casos português e grego, em perspectiva comparada, Dissertação de Mestrado, ISCSP, Lisboa.