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O que fica dos 33. 5 de 7

Aos 33 repeti a amarga experiência do luto. Sim, também houve momentos de profunda tristeza neste ano que termina.

O preto é, por defeito cultural, a cor escolhida para representar a perda, a ausência de alguém que não mais volta… Para mim, não. Para mim, a cor do luto é o branco: a total imensidão, ao mesmo tempo que acalma, que sossega, que transmite paz. Como esta fotografia da nuvens, daquilo que existe acima de nós, do que não conseguimos ver nem é, sequer, palpável. E isso também faz parte do processo.

Recupero o que escrevi no final de 2017:

“Os 33 levaram-me uma pessoa que amo. E nunca vou deixar de amar. Um pessoa que me ensinou o sentido da família, que me ensinou a amar mesmo quando não é tudo perfeito. A falta é brutal, mesmo à distância… a falta é brutal. O amor pode ter várias formas. A distância física é muito pouco quando se ama alguém que foi um exemplo para nós. E que, sabemos, nos amava de volta. Mas não quero ficar na perda… Quero celebrar a sua vida. A imensa gratidão de o ter tido comigo 33 anos, de me ter dado nome, de me ter embalado e baptizado. As lições que deu. O dever que cumpriu. O olhar meigo, a bondade, o discernimento, a inteligência… Sim, era o mais inteligente de todos nós. As salvas no seu funeral que ainda hoje ecoam na minha cabeça lembram-me isto tudo”.

E sobre isto, não pretendo dizer mais nada. Não posso, mesmo, dizer mais nada. Porque eu ainda não fiz este luto e não sei se o conseguirei fazer.

Mas, infelizmente, os 33 levaram-me outra pessoa, talvez um dos primeiros responsáveis por aquilo que sou hoje. No seu funeral li-lhe uma pequena homenagem. Quando terminei, choravam todos menos eu, que não podia. O meu professor de História e Geografia de Portugal, Emílio Serra, cego, um homem FABULOSO. Pediram-me para partilhar o texto e hesitei sempre… agora é o momento.

“Querido amigo, a primeira coisa que lhe quero dizer é ‘desculpe’.
Por não ter chegado a tempo. Soube há poucas semanas que estava doente e a vida que me incentivou a seguir não deixa tempo para muito. Ou para quase nada.
E se aqui estou é por sua causa. Essa é a segunda coisa que lhe quero dizer. Há mais de 20 anos levou-me a um estúdio de rádio… Tudo começou aí, nessa segunda feira na Rádio Tágide, o programa chamava-se ‘Letras Sonoras’. O resto da história já sabemos.
Consigo ouvir agora a sua bengala a bater na tijoleira das escadas do bloco onde tínhamos aula. A sala 7, se não me falha a memória, era a sua. Nós, miúdos, nem conseguíamos perceber como lia braille. Foi das primeiras lições que nos deu. Mas houve mais: Ensinou-nós a ir contra a corrente quando dinamizou uma escola, levantou um grupo de teatro e o fez resistir várias décadas. Mostrou o que era a resiliência quando contou a história de uma namorada com quem não casou poque os pais imploraram pela alma do irmão que não casasse com um homem cego.
Era isso que o tornava especial. O facto de lhe faltar um sentido apurava todos os outros e também nos fez perceber isso. Era um profundo conhecedor de todas as matérias. Figura pouco consensual, aliás nunca o ouvi dizer que queria agradar a todos… sabia bem que esse era o caminho para o fracasso.
Poucas coisas o emocionavam como uma estreia de uma peça de teatro ou uma conversa em torno de uma mesa. Obrigada por nos ter dado também essa experiência, de uma riqueza imensa e que hoje ainda todos recordamos.
Fomos amigos 23 anos. E mesmo não estando juntos muitas vezes sei que nos compreendíamos como poucos.
Obrigada por ter sido o primeiro a acreditar em mim e naquilo que eu sou hoje, pelas mensagens no natal, e pela companhia de manhã.
Até sempre”.

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O que fica dos 33. 4 de 7

Os 33 foram o ano das intolerâncias alimentares. E os 34 vão ser o ano da dedicação a este assunto mas… uma coisa de cada vez! Aceitar, é a palavra.

Neste ano que termina fui obrigada a perceber que mudamos, também fisicamente. O nosso metabolismo acelera ou diminui e o nosso organismo reage de forma mais eficaz a tudo o que nos faz mal (principalmente) como que uma campainha que só para de soar quando deixamos de nos sacrificar com coisas que não fazem sentido. A primeira lição foi com o chocolate (ainda antes dos 33) ao ponto de pensar que podia estar associado outro problema mais grave- a reacção era uma brutalidade de aftas que se sucediam, sem dó. Cheguei a ter 7 em simultâneo e só percebi que era do cacau (só comia chocolate com mais de 75 % de cacau) porque fui fazendo uma série de experiências, sozinha.

Depois, os ovos. Um episódio de intolerância e mais 2 recaídas não deixavam grande margem para dúvidas. Foi terrível porque consumia ovos principalmente em situação de pré e pós-treino e são uma boa fonte de proteína. Tive de deixar e encontrar alternativas, ainda não tenho nenhuma que seja tão eficaz. Depois, a minha tendência é para um regime cada vez mais isento de proteína animal: dou preferência ao peixe, sempre, mas quando posso evito.

Uma análise sanguínea fez-me perceber o quadro todo: glúten, lactose, milho, salmão (sushi nem vê-lo), cavala, amendoim, cajú, avelãs, cenoura, lentilhas, soja, ovos, fermento, castanha do pará. Estas são as intolerâncias máximas porque nem vos vou enumerar a lista de alimentos ‘a consumir com moderação’. Visto isto… é aceitar e adaptar. Fui à dispensa e tirei tudo o que não podia consumir, fiquei quase sem nada mas reabasteci. Sem exageros que sou absolutamente contra o desperdício. Acabaram-se ‘as porcarias’, não posso e mesmo que consuma, garanto que não compensa porque os efeitos são horríveis e eu já tenho a minha parte de sofrimento. Não assim tão inconsciente. Naquela lista estão alimentos que fazem parte da alimentação mediterrânica e que todos os profissionais de saúde apregoam como maravilhosos e são, eu é que não os posso consumir. Quando vou comer fora e peço uma sopa, a de legumes está sempre excluída, haverá alguma que não tenha cenoura? Pois…

A parte boa? A minha alimentação é cada mais saudável, mais básica, muito Paleo, ainda que de forma inconsciente.

A parte má? Alguns dos alimentos alternativos são mais caros e nem sempre se encontram. Prometo que também vos vou ajudar nisto, nos próximos tempos.

Exemplo disso é o meu pequeno almoço de hoje, é fim de semana, mereço um bonús: Galão de leite de arroz, maçã sem casca (nunca mais vou conseguir casca… cheira-me) com um bocadinho de canela e pão de espelta e matcha com creme vegetal e um bocadinho de doce de morango caseiro (feito por mim). Eu não me imaginava a comer isto. Mas é bom, acreditem.

 

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O que fica dos 33. 2 de 7.

Aos 33… voltei ao Porto Santo. Voltei três vezes: uma em reportagem, outra nas férias e depois no final de ano. A palavra que levo daqui é energia.

Podem não acreditar mas quando se aterra no Porto Santo a alma é inundada da mais profunda paz, da mais real serenidade. É como se o ar que por lá se respira fosse mais puro- ali raramente tenho crises alérgicas, levo a bomba da asma (amiga fiel) apenas para usar em SOS. Nunca foi precisa. Nunca há risco de comer coisas menos boas, o que a terra dá, é do melhor que pode existir: o tomate é doce, a batata doce é mais perfumada ainda, o maracujá-banana é tão sumarento e o physalis é mesmo biológico. Já tentei comprar para trazer mas como-os sempre, antes da viagem. Não dá. Desta vez só evitei mais o bolo do caco mas vinguei-me nas lapas.

Gosto muito desta fotografia porque me mostra a tranquilidade que sempre ali encontro. As férias do verão foram um lavar de alma, um renascer, um começar de novo, a implosão. Nada mais foi igual. No dia que cheguei aconteceu o mesmo de sempre: dormi profundamente e durante muitas horas. Que banal, não é? Parece tão simples desligar, ‘puxar a ficha e perder a corrente’. Mas não é. Precisava muito fazer isso, vinha de um ano extenuante, e ali aconteceu assim. Fiz do colme da praia o meu poiso mais constante e durante 10 dias não fiz rigorosamente nada a não ser descansar. Já conheço de cor as tábuas do passadiço da praia, os puffs do bar, as poltronas do beach club onde tantas tardes me perdi a ler, as espreguiçadeiras onde apanhei escaldões (adormeci ao sol…)… Mas parece que é sempre a primeira vez. É sempre regressar a casa. Ali, a minha profissão não interessa para nada, não importa se tenho uma jóia bonita, a marca dos meus sapatos ou qual o meu peso. Ali importa a essência, a energia, a verdade do que somos e do melhor que conseguimos ser. Ali nem é preciso carro, que se faz tudo a pé. No ano passado, por causa dos ventos fortes no Funchal, a ilha ficou sem abastecimento de comida e outras coisas. Não foi preciso muito tempo para recuar à existência básica, apesar das imensas reservas: precisamos de pouco para viver e de menos ainda, para sermos felizes.

A ilha de Porto Santo é mágica: une pessoas, fá-las encontrarem-se. Conheci ali quem vai comigo para o resto da vida: o Hugo, o Rui, a Andrea, o Bruno, a Dalila, o Miguel, a Margarida, a Andreia, o Roberto, o Nélio.

Ali, o mar é mais azul, de um azul que não encontro mais, de vários tons como se uma paleta fosse colocada na nossa frente, a cada passo na areia. Percorrer os 9 quilómetros de praia é algo único. Neste momento em que vos escrevo, sinto o ar no cara, ouço as pessoas e tenho areia debaixo dos pés. Porto Santo é um postal verdadeiro que acontece perante os nossos olhos em tempo real: miradouros, paisagens completamente diferentes entre o Norte e o Sul da ilha, o Ilhéu da Cal e o do Farol, fragatas afundadas para mergulho, passeios a cavalo, um pontão digno de filme, tratamentos com areia (psamoterapia) e com água (talassoterapia, a maior do país) que nos fazem sentir nas nuvens, vão por mim. Nas nuvens! Nesta ilha parece que nunca faz frio, ao ponto de se tomar banho no final de ano, o sol não engana! Depois há a parte segura: as coisas ficam todas e ninguém mexe, no espaço de 100 metros não há toalhas à nossa volta e… a pista do aeroporto chega de uma ponta à outra da ilha, já imaginaram sítio mais seguro para aterrar? Morro de medo da pista do Funchal, pronto, já disse!

A ilha de Porto Santo foi descoberta em 1418, por João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo mas o nome mais sonante é o de Cristóvão Colombo. Diz-se, sem certezas históricas da data, que Colombo passou pela ilha para se refugiar de um temporal e… apaixonou-se. Era por isso um ‘porto seguro’… E para mim também passou a ser. Porque será?

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O que fica dos 33. 1 de 7

Faltam 7 dias para o meu aniversário. As redes sociais fazem questão de mo lembrar com bastante insistência ao ponto de eu achar, também, que devia parar e pensar nisso. Os últimos dias têm sido mais preenchidos e, de facto, está na altura da pausa… e reflexão. Não ‘Pausa e Silêncio‘ como dizia Herberto Hélder em relação às palavras, mas balanço.

Até à próxima quarta-feira, dia do meu aniversário, vou partilhar convosco 7 momentos marcantes dos meus 33 anos. A idade de Jesus Cristo é marcante na vida de todos, dizem, só posso confirmar que na minha também assim foi. Foi o ano em que a minha vida deu uma volta de 180 graus. Por motivos vários, nem sempre (quase nunca) por minha vontade, foi preciso fazer ‘RE’ (começar)  e aprender tudo de novo: a vida, a felicidade, o tempo, o amor.

A primeira palavra que está na minha mente é gratidão. Ganhei tanto neste ano que as palavras não chegam para vos explicar. Ganhei sobretudo conhecimento, a imensa capacidade de não aceitar o que chega até mim e querer sempre mais. Foi o ano do início do meu doutoramento em Ciência Política, o ano curricular, que terminei com uma média fantástica de 17 valores. Não me vou alongar no ‘não foi fácil’, vou antes focar-me no ‘valeu tanto a pena‘!! Aprendi matérias que não dominava, das quais não conhecia as origens, nem sabia como se trabalhavam; moldei a resistência que me permitiu estar numa sala de aula até às 22 horas de todas as sextas-feiras e aos sábados de manhã, senti na pele o que é espírito de sacrifício e consegui dividir o dia em 4 ou 5… ou 6 partes, já nem sei. E tive tempo para absorver tudo: economia, geo estratégia, governance. Defendo que o que gastamos em educação e saúde é investimento. Estou a fazer a minha parte.

Aprendi a pensar. Um doutoramento não se faz tanto pela nota, até porque, no fim a classificação é qualitativa, mas mais pelo estímulo de pensamento, pelo cruzamento de ideias que pareciam não ter relação, pela capacidade de associar situação diferentes que acontecem na nossa vida, no país e no Mundo e ver mais além, ver além do óbvio. Poucas coisas são óbvias e raramente são o que parecem (onde é que já ouvi isto…?!). O brainstorm constante com uma turma fantástica e a troca de informação e informações, desde o primeiro dia, foram fundamentais.

Nunca teria conseguido sozinha. Mas é sozinha, neste este auditório onde irei defender o meu tema, que gosto de olhar para o futuro. Esta fotografia foi registada em Maio de 2017.

Agora, o caminho é mais solitário. Agora, o caminho é meu.

 

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Semana 6.

E chegámos à sexta (e última) semana de dieta Low FoodMaps, quis o destino que fosse no Dia Mundial da Felicidade. Sim, eu estou feliz porque me sinto bem. Finalmente.

6 semanas da restrição que vos contei e que me ajudaram e muito a recuperar a força. Voltei a comer hidratos, coisa que fazia em menos quantidade (ou quase nenhuma) porque teve mesmo de ser… não tinha força, não tinha resistência e para voltar ao ginásio tinha de procurar a primeira para conseguir a outra. De resto, posso dizer-vos que não me custou rigorosamente nada. Eu já tinha muitos cuidados. A regra sempre igual: 1/4 do prato com proteína, 1/4 com hidratos e o restante com legumes.

Neste tempo eliminei vários alimentos. Aconteceu que alguns que faziam parte deste regime estavam também na minha lista de intolerâncias: glúten, lactose, ovos, milho, cenoura, salmão, chocolate, leguminosas. Outros passei a consumir de forma muito doseada: batata doce (partiu-me o coração, mesmo), queijo, espargos, bróculos, grelos. O que me custou mais? Deixar de comer fruta com casca (tem muita fibra e não podia ser, agora) e sushi… não como há 3 meses. Só não estou a ressacar porque bloqueei a memória gustativa do meu cérebro (gostava tanto de ser capaz…). Pronto, assumo, estou a morrer por sushi mas é o que é, não dá não dá. Depois, outras coisas que percebi que me faziam mal: banana e atum. Tenho imensa dificuldade em fazer a digestão destes dois alimentos, o que, no caso da banana é bastante dramático: quando deixei os ovos, passou a ser a minha opção no pré-treino.

Depois, passei a andar com 2 lancheiras com fruta fresca, galetes de arroz e pouco mais. E claro… refeições fora só com a garantia que seria qualquer coisa grelhada e sempre acompanhada de legumes.

Agora é re-introduzir alimentos. A Dra. Ana Rita queria que o primeiro fosse o glúten mas já conversamos sobre isso e vamos passar a outro.

De resto, regressei ao ginásio 3 vezes por semana e agora almoço antes e tudo com muita calma. Outra das grandes novidades no meu dia é que a lancheira também inclui o almoço. É um desses exemplos que vos deixo, um almoço dos meus em que incluo um super alimento: a quinoa. Não é consensual porque tem imensa fibra mas eu consumo em quantidades pequenas, é mesmo só antes do treino. Aqui, usei curgete que fiz no forno só temperada com um fio de azeite e coentros e espinafres, cozidos a vapor, acrescentei ainda umas nozes e pronto.

Bom treino para mim e bom apetite para vocês.

 

 

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Pratos (meio) cheios

Ontem resolvi ir ao cinema, depois do trabalho. Uma aventura, há anos que não vou ao cinema à noite. A opção era afundar-me no sofá, tipo ácaro. Então, fiz tempo e acabei por comer qualquer coisa por ali.

Antes de entrar, acho que já me ria mas ia com esperança… Primeiro desafio: o que comer? Digamos que, neste momento, não sou das pessoas mais práticas em termos de alimentação mas acreditei ser possível. Siga! Não me apetecia grande coisa e penso na sopa… Não há hipótese. Cheias de gordura, massa ou cenoura… Coisas de que a HP (cautela, sempre!) gosta e a que eu sou intolerante e eu não quero nem posso comer. Até os cremes de legumes estão cheios de natas- lactose também não dá. Depois de uma volta, opto por uma espetada de frango com camarão, legumes salteados e batata doce. É frita, por isso é mesmo só para comer uma, para matar saudades. A batata doce faz parte do grupo de ‘alimentos a evitar’ nestas 6 semanas de dieta Low FoodMaps. Só posso comer uma vez por semana. Abri a excepção para matar saudades mas… Comer uma? Esqueçam.
Sabem aquela regra de dividir o prato em 1/4 de proteína, 1/4 de hidratos e o resto legumes? Já era. Serviram-me taaaaaaaaanta batata doce que eu nem via a espetada. Bem sei que tenho cara de fome, admito, mas já estive pior.

Imagem: Google.pt (este não era o meu prato, calma!!)

Isto é uma questão cultural: Um prato cheio não é sinónimo de bem servido. Se calhar, outra pessoa reclamava se tivesse menos mas… Não estamos nessa fase. Além de não precisarmos de comer assim, também precisamos olhar para a saúde. Vou só lembrar-vos que a obesidade é um dos grandes problemas do século e uma das principais causas de morte em todo o mundo. A obesidade acaba por estar relacionada com uma série de outros problemas: diabetes, hipertensão, AVC. O caso é ainda mais assustador se pensarmos que 60 % da população portuguesa sofre de obesidade ou está em risco de sofrer. Os dados são muito recentes, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e alertam que são os mais novos, os mais velhos e os que têm menos níveis de escolaridade os mais afectados por este problema.

Resultado: a espetada estava boa, sim sr… Mas a batata doce foi toda para o lixo, e os legumes  também porque 70 % da dose era composta por cenoura. Variedade = 0.

E perguntam: porque não comeste, mesmo assim? Porque eu sei o que ia acontecer nas horas seguintes, não era preciso mais. As dores de estômago vão voltar e atacar-me ao ponto de ficar com náuseas que me impedem, sequer, de pensar. Além do mais, isto não é uma questão de gulodice, amigos, é uma questão de saúde.

Portanto, quando vos servirem um prato muito cheio seja de batata doce ou cozido à portuguesa, pensem bem se querem mesmo comer tudo, se precisam de comer tudo, se a vossa saúde é compatível com tantos disparates que, às vezes, fazemos. Eu também fazia. Mas isso já ficou lá atrás. É passado.

 

DUAS NOTAS A RETER: não fiquei com fome e também não adormeci no cinema. Já agora, o filme era ‘Mark Felt- O homem que derrubou a Casa Branca’. Não é estupendo mas vale sempre a pena ver. É cultura.

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Histórias da redacção #1

Receber retorno do nosso trabalho é das melhores coisas para quem trabalha em televisão. O feedback que as pessoas nos dão ajuda a perceber se estamos no caminho certo e se devemos continuar.

Há cerca de 2 anos, o Diário da Manhã da TVI e TVI 24 perdeu a Agência Financeira. Depois, nasceu o espaço dedicado à Economia 24, com análise de especialistas e de situações que possam ser úteis para os espectadores. Essa data coincide com a chegada da Alda Martins ao programa.

Nos últimos tempo os assuntos económicos têm sido mais dedicados a questões fiscais e, nomeadamente, ao IRS. Hoje, no final do programa falámos disso e a Alda contou uma história maravilhosa. “Um dia recebi um e-mail de um telespectador que agradecia o nosso espaço Economia 24, dizia que era muitíssimo útil e pedia ajuda para uma situação. Qual o meu espanto quando, mais abaixo.. . indicava o NIF, os seus rendimentos e os dados pessoais para que o ajudássemos a preencher a declaração de IRS“, conta. Mas as pessoas fazem isso com frequência, perguntei. “Não este género de coisas. Mas eu e a Vanessa Cruz recebemos muito feedback“. Quis saber o que respondeu, naquele caso em concreto. “Agradeci muito a prova de confiança, porque entregar os nossos dados implica confiar. Mas que claro que não podíamos fazer isso porque não somos uma entidade responsável por esses procedimentos e que os dados são pessoais e intransmissíveis. Depois expliquei que este ano a entrega de declarações vai ser feita apenas por internet e expliquei como proceder”.

A Alda diz que “saber que as pessoas nos acompanham e que somos úteis na resolução de qualquer coisa na sua vida é fantástico” e eu não podia concordar mais.

Todos os dias há histórias para contar, nas redacções. Histórias que fazem sentido, outras não tanto… mas todas que nos puxam para a realidade que vivemos e que nos rodeia. 

Ah, já agora… as dúvidas devem ser enviadas para economia24@tvi.pt 

 

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Uma coisa de cada vez

Sempre acumulei funções. Mais ou menos, a minha vida tinha sempre espaço para mais qualquer coisa: trabalho de madrugada, 1000% em cada emissão, trabalhos da faculdade, pesquisa para a tese, consulta de obras, conferências, comunicações, reuniões, ajudar alguém que precisava de mim, em qualquer lugar. A verdade é que saía de casa antes das 5 horas e voltava, às vezes, às 20 horas. O ritmo era alucinante mas isso não era mau, estava a fazer coisas para mim, que me preenchiam e completavam. Os dias passavam e a minha televisão não funcionava, fazia tudo on-line, via tudo nos sites. Optimizava o tempo. Pensava eu que era organizada quando me perguntavam ‘como é que consegues?’.

Mais compromissos, mais responsabilidade e… menos tempo. Era engolida pela ansiedade de não ter mais de 10 minutos entre cada obrigação e uma fila de trânsito era um caos para mim. Dava, dava sempre. Até ao dia em que não dava mais. Porque alguma coisa me ia fazer parar.

Começou por ser uma gripe mas depois foi a HP. Eu não percebi logo a importância que teve na minha vida. Era preciso fazer um tratamento, certo, mas poderia aproveitar algum tempo para resolver questões do doutoramento, por exemplo. Não. Pensei que podia escrever enquanto estivesse em casa… mas também não. Em vez disso… parei. Fiz zero. Não podia. Não conseguia. Provavelmente dormi 18 horas por dia. O máximo que consegui foi escolher revistas e jornais e sair duas vezes para comprar comida.

A questão do doutoramento foi possivelmente o ‘click’ que me faltava. O calendário dava conta que era preciso terminar um pré-projecto para entregar a 10 de Fevereiro e defender no dia 21, já estava tudo marcado, até já tinha escolhido a hora. Adiar este momento para Julho, para dali a 6 meses, significava um fracasso para mim. Todas as ideias na cabeça, um documento já meio revisto… e agora?! Eu que sempre tinha feito tudo à primeira, que agora até executava melhor e com mais rigor… adiar um prazo? Eu, que tinha feito uma pós-graduação, um mestrado e metade de um doutoramento, com mérito, neste horário ia sucumbir agora? Não. Não e não! É claro que vou conseguir!

Não consegui. E pior… não consegui fazer nada para alterar isso. Porque a cabeça não acompanhou. Este tornou-se, possivelmente, o motivo que eu precisava para mudar toda a minha vida. Toda mesmo. Digo-vos isto com o maior sorriso que posso ter.  

Deixei de correr. A máxima “Só corro para apresentar notícias” já me acompanha há algum tempo mas faz o triplo do sentido, agora. Deixei de tentar fazer tudo, estar em todo o lado. Estou onde preciso de estar mas, acima de tudo, onde consigo estar. E não é um estar a qualquer preço. É estar bem, aproveitar, desfrutar do momento, das pessoas que estão comigo, que também querem aproveitar a minha companhia. Estou ali e só ali. Não acumulo funções: se não consigo, não faço. Além do meu trabalho em que continuo a 1000%, dessa parte não abdico, lamento, do ginásio porque é cada vez mais importante cuidar de mim e tratar destas coisas todas, só faço uma coisa por dia. Entenda-se, uma coisa de trabalho extra. E permito-me relaxar, estar com mais pessoas, almoçar com amigos, lanchar, passear, fotografar. Tenho tempo para tudo, estou cada vez mais focada e mais orgulhosa de mim. Não invento, sei os meus limites porque toda a gente os tem e eu sou humana, que óptima notícia! Mas… não sou imortal, é a parte chata, fizeram questão de mo ‘lembrar’ há uns dias.

Poucas coisas na vida podem ser mais libertadoras que uma decisão correcta. Tomei várias nos últimos tempos. Com coragem, humildade mas muita vontade de viver.

Eu já não quero ser profundamente eficiente. Eu quero é ser profundamente feliz.  

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A comida. Sempre a comida.

A minha mãe tem um conjunto de frascos castanhos de acrílico, semi-transparentes, com uma tampa vermelha, daqueles que havia em tantos lares. Na casa dos meus pais ainda existem, são frascos que guardam açúcar, arroz, farinha, pão ralado, folhas de louro. Conheço-os desde sempre e até os estou a ver neste instante, na minha frente. Na verdade foi ali que, pela primeira vez, vi estes alimentos. Para mim, o açúcar, arroz, farinha, pão ralado e folhas de louro vinham dali. Claro que o tempo me fez perceber que os alimentos vinham de outros sítios e que apenas terminavam a viagem ali e, depois, no nosso prato (calma, eu sei de onde vêm os ovos e a massa!). O conteúdo daqueles frascos era a comida como sempre a conheci. Mas tudo muda. E, apesar de já não ter associado à minha existência apenas aqueles alimentos, recentemente tive de mudar ainda mais.

Fonte: Google.pt

A querida HP obrigou-me a um tratamento mais agressivo, com 2 antibióticos e isso enfraqueceu o meu organismo. Era (e é) preciso recuperar tudo porque viver sem sistema imunitário é semelhante a viver exposto a temperaturas extremas: o calor queima-nos mas o frio também e as consequências são imprevisíveis. Equilíbrio, precisa-se e urgente! Devido a esta ‘aventura’ com a HP optei por um aconselhamento mais sério e pela ajuda de outros profissionais (menos o meu super-médico) para me ajudarem na recuperação. A Dra. Ana Rita Lopes que já conhecem e podem ler nas ‘5 perguntas a…’ falou-me de um plano alimentar que tem resultado com vários pacientes. O plano chama-se Low FODMAPs, o nome é estranho mas é muito fácil explicar: FODMAPs são um conjunto de nutrientes que são mal absorvidos pelo organismo e que podem causar desconforto intestinal- distensão abdominal, dor abdominal, flatulência, diarreia e/ou obstipação. Estes nutrientes incluem a frutose, a lactose, os oligossacáridos (frutanas e galacto-oligossacáridos) e os poliálcoois.

Há nomes mais estranhos e por isso vou utilizar a tabela que a Dra. Ana Rita me facultou também para que percebam ainda melhor do que se trata.

 

FODMAPs ALIMENTOS
Frutose Mel, frutos, vegetais
Lactose Leite e derivados
Frutanas Cereais e farináceos, legumes, frutos
Galacto-oligossacáridos Leguminosas
Poliálcoois Adoçantes, frutos, vegetais

 

Este tratamento consiste em 6 semanas de um regime alimentar em que são restringidos alimentos mais ricos em FODMaps, de forma que o tecido intestinal mas também a flora gástrica consigam recuperar de forma muito eficaz e consistente. Durante todo este tempo, é importante anotar (escrever mesmo, sim) a reação do organismo aos vários alimentos: o que funciona para umas pessoas não é indicado para outras. Por exemplo, eu sou intolerante à cenoura (isto é outra conversa, a das intolerâncias) mas a cenoura surge como alimento a preferir nestas semanas; a laranja é aconselhada mas no meu caso não convém porque ainda estou a recuperar da HP. Mas, mais importante ainda, é seguir as indicações. Se se consumir algo que não está indicado, não tenham dúvidas: o organismo vai mesmo reagir.

Não espero com isto emagrecer (perdi 4 kgs e estou a recuperar) mas quero muito viver bem e, acima de tudo, viver melhor. Estou quase na quarta semana e sinto-me lindamente.

Isto funciona como tratamento e é mesmo. Não há alimentos melhores nem piores (excepção ao açúcar refinado, um veneno!), há alimentos que toleramos e outros que não nos fazem assim tão bem, pelo menos em algumas alturas. Acredito que a minha saúde vai melhorar muito, confio plenamente na Dra. Ana Rita.

No meu caso, é reaprender a comer, procurar, analisar, pesquisar e crescer muito enquanto consumidora. Se me virem num supermercado a ler rótulos, deixem-me ficar. Agora, é mesmo assim!

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5 Perguntas a Catarina Canelas

Em semana de Aniversário da TVI e TVI 24 faz todo o sentido questionar uma das maiores promessas (e já certeza, também) da redacção. Tenho a certeza que já viram reportagens da Catarina.

1 – O que é uma boa história?

Uma boa história é aquela que nos cria desassossego de alma, que nos faz parar e pensar! É a que nos faz ficar agarrados frente a um ecrã, um jornal ou um livro, como se estivéssemos a ver o mundo pela primeira vez. E também aquela que nos faz desligar dos “likes e tweets”e nos faz voltar ao mundo real, onde há pessoas, lugares, dramas e até choro e risos. Se não houver arte para este “choque” com quem está a ver, nunca será uma boa história. Ou seja, se não soubermos contar uma boa história, ela nunca será uma boa história. E já vi tantas boas histórias “assassinadas” por serem mal contadas.

2- O que te apaixona na reportagem?

Ouvir ! É importante saber ouvir as pessoas e conversar com elas. Saber ser fiel quando transmito as emoções, as memórias, os estados de alma de quem fala comigo, sejam as inquietações ou a felicidade. É um privilégio poder ser os olhos e a voz das pessoas. Nos dias das notícias rápidas é bom ter uma pausa no discurso e ouvir com tempo, com toda a atenção, o que têm para nos dizer. Há cada vez menos momentos destes e é uma pena.

3 – Qual a história que mais te marcou?

Podia dizer-te que a que mais me marcou foi a dos sem abrigo “Um Lar Debaixo da Ponte” por ser uma história inédita, de uma beleza rara e por ter sido a minha primeira grande reportagem, que teve um fabuloso e raro impacto no país e na reação das pessoas. Mas depois disso fiz outras grandes reportagens que me marcaram ainda mais. A fuga dos portugueses de Angola em 1975 “O Lugar Onde Eu Fiquei” e “O Renascer das Cinzas” que conta a tragédia deste ano em Pedrogão Grande, onde morreram 65 pessoas.

4 – Porquê?

Escolhi as 3 reportagens porque embora em tempos, momentos e circunstâncias diferentes, têm tanto de igual. O que existe nelas é perda, é dor, angústia, drama, mas é sobretudo superação e resiliência. São pessoas que perderam tudo mas que seguem em frente e, em muitos casos, são aquele exemplo que precisamos para sentir que afinal os nossos problemas são irrelevantes.

5- Porque é que ainda vale a pena ser jornalista?

Tenho pensado nisso muitas vezes. Mas cada vez que me envolvo num trabalho de grande escala tenho seguramente a certeza de que as pessoas precisam deste jornalismo com rigor, exigência e dedicação. Ser jornalista é uma questão de ADN, é uma missão e um grande compromisso com a sociedade, com a nossa alma e o nosso ser. Quem não sentir isto, não venha! Ou fuja!

(É sempre assim: ela fresca e eu a morrer!! Aqui, no dia de aniversário da TVI.)

 

Não sei há quantos anos ouço a Catarina, nunca lhe perguntei, mas certamente há tantos quantos aqueles a que estou na TVI (vai para 11). Sempre registei a sua voz doce, o rigor no trabalho, a sua dicção sem igual… ficou no ouvido por que não a conhecia pessoalmente- eu estava em Queluz de Baixo, a Catarina em Coimbra. Depois de a conhecer, a minha ideia só saiu mais reforçada. Ficámos mais próximas quando eu fazia Jornal da Uma, ao fim de semana, aproveitávamos e passávamos mais tempo juntas, a redacção ao fim de semana tem sempre menos gente. A Catarina é daquelas pessoas que sentem, que conseguem estar no seu lugar e no lugar dos outros e é por isso que conta tão bem as histórias: nunca se esquece do seu lado mas isso não a impede de sentir, viver, cheirar, tocar, provar… tudo aquilo que um jornalista deve fazer, colocar todos os sentidos ao serviço de uma reportagem. Só assim se consegue fazer bem e, entre elas, a Catarina faz do melhor que já vi. Em cada trabalho, a repórter é os olhos de quem vai depois assistir. Tenho a certeza que em 99,9% das vezes o meu olhar não seria diferente. Não é apenas um dia de inspiração, não é apenas uma frase que lhe sai bem… por que saem todas bem. A Catarina sente, sem medo (nunca me vou cansar de dizer isto) e isso permite-lhe fazer uma reportagem sobre a tragédia dos incêndios, uma sala de matinés na margem sul ou uma peça com material de envios internacionais, sobre as tartarugas em vias de extinção que vão desovar a uma praia paradisíaca. Ela é jornalista mas é espectadora, é profissional mas é eficaz, é isenta mas é curiosa. E sabe perceber tão bem onde está uma boa história. Sim, ser jornalista é mesmo uma questão de ADN.

O ano passado foi particularmente grande e, um dia, numa das minhas muitas manhãs, a Catarina chegou a mim com um abraço cheio de carinho, um sorriso enorme (como habitualmente) e o olhar parado… e disse que precisava falar comigo. Puxou-me para uma sala de reuniões e sentámo-nos. Naquele instante passou-me tudo pela cabeça… e ela diz “tenho andado muito ausente nestas últimas semanas e isso tem uma razão”. Sustive a respiração, o tom era sério. “Nos próximos dias vou lançar um livro, tive uma proposta de uma editora sobre o tema de Moçambique e aceitei o desafio”. Naquele instante não sabia se lhe batia ou se respirava de alívio. Fizemos a festa, ali e depois no dia do lançamento. Fiquei e fico muito feliz por que sei o que a move, quais os seus valores, qual o seu foco: fazer mais, melhor, todos os dias, todos os assuntos. Respira, come, bebe jornalismo. E sonoriza como ninguém, a palavra mais difícil vira flor.

Nunca lhe disse mas tenho muito orgulho na nossa amizade.