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7 Maravilhas

Quando sabemos o que somos, de onde vimos, onde pertencemos não há grandes dúvidas sobre as opções que tomamos. Foi isso que me levou a aceitar este convite da Câmara Municipal de Constância para ser madrinha do concelho nas edição das 7 Maravilhas à Mesa.

Aprendi a nadar nas piscinas do Campo de Instrução Militar de Santa Margarida, nadei nas águas geladas do Zêzere, atravessei o Tejo de barco inúmeras vezes, esfolei os joelhos na Quinta do Lombão, cresci a comer peixe do rio e a broa de milho que a minha avó Esperança comprava ao Sr. Henrique, o padeiro que passa todos os dias.

Hoje já não há broa. A avó Esperança já não olha por cima dos óculos, o meu pai já não pesca no rio mas eu volto sempre aqui. Por que a essência não se perdeu. Nunca se perde. E porque as pessoas contam sempre mais. Triste de quem ainda não percebeu isto.

Em Alijó (viagem grande) a mesa de Constância não passou à final. Valeu a pena participar. Também não há muitas fotografias, ficou tudo reservado na memória que os programas em directo não são amigos dos telemóveis.

Obrigada a todos! Ao Presidente da Câmara Municipal de Constância, Sérgio Oliveira, meu amigo há quase 30 anos, ao grupo que nos acompanhou e à produção da RTP.

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Sorria, está a ser filmado

Alguém pensa nos dias maus?

Alguém pensa no que custa levantar a cabeça, inspirar e falar?

Alguém pensa que sorrir… pode custar tanto? Encarar as pessoas, a família, o público, o chefe, o país, a audiência.

Alguém alguma vez pensou que esse é um dos maiores desafios desta vida?

Sorrir. Devia ser tão simples, tão natural, tão espontâneo, tão generoso.

Alguém alguma vez calçou os sapatos do outro? O maior acto de humildade- colocar-se do outro lado. Sentir o que se sente. Sentir as pedras todas do caminho.

Alguém alguma vez pensou que se daria a vida para não ter de sorrir ali, naquele instante, naquela situação?

Às vezes… ninguém sabe. Ninguém imagina o que custa sorrir, apenas.

 

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Vá pelas escadas

34. São 34 degraus desde a entrada do prédio até à entrada da minha casa.

Um dia decidi que ía usar o elevador apenas nos dias em que os sacos de compras pesam demais até para uma corajosa como eu ou quando venho de casa da mãe e trago tudo e mais alguma coisa.

Dizem os especialistas que são precisos 21 dias para criar um hábito, para que corpo e mente se habituem a uma rotina. Outros estudos revelam que ao fim de 6 meses a praticar exercício físico, as pessoas estão mais aptas para tomar decisões. Acredito que sejam mais, especialmente naqueles casos em que se sente dor, física ou emocional, por qualquer tentativa de mudança. Mas não os ponho em causa.

Subir e descer estas escadas funciona para mim como o momento de reflexão, do que já fiz e ainda falta mas principalmente, mostra-me evolução. Prova-me que depois de um há sempre o outro. Que a evolução é possível, que há sempre um lanço de escadas pronto a ser percorrido, até ao nosso patamar. Até chegarmos à nossa porta. Se eu quiser chegar à minha porta tenho de os subir, não há hipótese.

Mas lembra também que todos os prédios têm um último andar. Que não vale a pena correr escada acima, que tudo acaba. Tudo tem um limite. E até o conseguimos ver, cá de baixo.

Em Nova Iorque os prédios até 7 andares não têm elevador. Em Portugal, esta é das primeiras características que procuramos, logo a partir do 2º andar. Acho maravilhoso.

O caminho pode ser sofrível, nos primeiros dias será, seguramente. Depois, as pernas habituam-se. Os olhos já não espreitam a porta do elevador. E já nem nos lembramos de como se faz.

34 degraus.

Passaram 8 meses desde que comecei a fazê-lo.

Às vezes, quando entro no elevador, nem sei qual o número do meu andar.

 

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Saber sair antes do fim

Saber sair.

Uma virtude maior que saber dizer ‘não’, ainda que as duas se unam.

Perceber.

Quando estamos a mais, quando a nossa presença já não faz qualquer sentido, estar ou não é igual, é banal, é hábito.

Quando o nosso amor já não significa nada, já não move nenhuma montanha, já não resolve o indecifrável, já não faz a diferença nos dias maus, aqueles em que só queremos voltar a casa.

Quando não nos procuram, não buscam nos detalhes, nas mensagens de telemóvel ou no registo das ‘chamadas efectuadas’ o nosso número até já não aparece há tantos dias.

Quando não querem o nosso abraço, não procuram o nosso refúgio, o nosso calor, o nosso fôlego, as nossas palavras.

Quando a vida já não faz sentido connosco, o futuro já não aponta para aquela direcção, o pensamento já não vai mais além.

Quando uma tarefa já não nos preenche, não nos motiva, pesa, é dor, causa muito sofrimento, mesmo que seja o sonho de uma vida.

Quando as campainhas soam, quando os alertas disparam e nós ignoramos, ignoramos e voltamos a ignorar.

Até ao dia em que o Mundo cai, o corpo cede e a mente não ajuda.

Deixa ir. Entregar. A lucidez.

Quando é preciso saber sair antes do fim.

Perceber que uma vida, uma tarefa, um ciclo acabou. É, provavelmente, das questões mais aterradoras, para mim.

Respirar, levantar a cabeça e seguir, qualquer que seja o destino, qualquer que seja a previsão, não importa o caminho. Importa é a certeza, a fé de que tudo começa e acaba. Menos o amor, que tudo pode. Mas não chega.

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Onde é o paraíso?

Para chegar ao Casalinho passamos pelas estradas mais movimentadas até chegar às mais estreitas, que já são de alcatrão. Até chegar ao Casalinho, o calor aperta, lá aperta mais. A vegetação tomba para a estrada, os carros é que têm de se desviar. Os pinheiros cresceram desordenados depois dos incêndios de 2003, a memória tem de voltar a este ano (também) tão difícil para Portugal, ainda que 2017 tenha batido recordes de área ardida. Os pinheiros vêem-se e cheiram… tão bem. Há muito tempo que não sentia este odor, esta natureza tão… natural.

Cheguei ao Casalinho através do Miguel, um querido amigo, que quis mostrar-me das melhores coisas que tem. O ‘Refúgio do Raposo’ era a casa dos avós (Raposo, de nome) e os país resolveram recuperar tudo e melhorar, para deixar aos filhos algo mais que dinheiro: deixar-lhes valores (mais, ainda), um património com sentido, com verdade, evocar a história da vida de todos. Eu tive a sorte de o partilharem comigo. Sou do campo, muito do que está ali eu conhecia, valorizava, mas são as pessoas que contam. O silêncio, os passarinhos, as casas de xisto, o passeio na carrinha de caixa aberta, o queijo de cabra com mel (não, hérnia, isto não aconteceu!) têm mais sentido com esta família fantástica.

O ‘Refúgio do Raposo’ é um alojamento local, perto de Proença-a-Nova, decorado com tanta simplicidade que não tem falta nada, muito menos de bom gosto. O Miguel é apaixonado por astronomia, vi lá o eclipse e tive direito a explicação detalhada. Indescritível! Também por causa disto, cada casa tem o nome de uma estrela. A minha era Altair.

Muito e muito obrigada. Foi um renovar de alma, em 2 dias perdi 10 anos, dizem eles. E eu acredito.

(Esta fotografia fantástica é do Paulo Ferreira (PTLAPSE), as outras são minhas! Não tenho um alcance tão grande! )

      

 

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Dia dos Avós

Imagem: Pinterest

Neste dia dos avós recupero um texto que escrevi aqui em Janeiro deste ano. Recordava os tempos que passei com os meus avós maternos, durante a infância, na quinta onde viviam. Tenho muitas saudades, hoje faria muitas coisas diferentes. Aproveitava-os mais. O meu avô Henrique é a minha estrelinha. Sei que onde está, onde estão… estão sempre a olhar por nós.

 

O essencial é invisível aos olhos

Passei muito tempo com os meus avós maternos.
Quando eu era pequenina era assim que se fazia quando os pais não podiam estar sempre connosco. Depois mudou tudo e agora os netos já vão para casa dos avós, outra vez. E que bom que é, imagino. Os meus avós maternos já não estão fisicamente comigo mas sinto-os cá todos os dias. O meu avô Henrique era só a melhor pessoa do mundo. Ainda não tínhamos chegado perto dele e já os olhos brilhavam, rasos de água. Tinha-nos um amor excepcional, uma coisa sem medida. Quando eu e a minha mãe chegávamos lá estava ele, sentado na sua cadeira de madeira, virada ao contrário, a fumar o seu cigarrinho e a ver os comboios passar. Sempre à espera de ver alguém, nos dias tão longos da velhice, que o separavam de momentos mais preenchidos, de quando era novo e fugia da minha avó para ir beber o seu copinho de vinho à taberna. O meu avô tinha os olhos doces, de uma calma que já não existe, de uma ponderação que ja não se pratica. O meu avô deu-nos, a nós netos, um exemplo de tudo: de trabalho, de força, de humanidade, de carinho e resiliência: nunca, até morrer, se queixou do que quer que fosse. A frase foi ‘Eu estou bem’… Até ao fim.
Há muito tempo que acredito que ele é a minha estrelinha lá em cima, sinto-o. E sei que os meus primos também. Um de nós herdou o seu nome.
A minha avó Esperança era igual no exemplo: mulher danada para criar os filhos e ainda tomar conta dos netos, mas menos dada aos afectos. As suas manifestações de ternura eram sob a forma de qualquer coisa: uma saia de peitilho cosida na máquina, uma travessa cheia de batatas fritas às rodelas (chefes de todos o mundo, podem tentar… nunca hão-de conseguir sabor igual), toucinho assado (idem), café na cafeteira que estava todo o dia no lume, e saquinhos de retalhos que combinava como ninguém, com a mestria de quem aprendeu a fazer pachtwork numa qualquer escola de arte, tão maravilhoso para alguém que nem sabia escrever.
Nesta altura, o nosso chá ainda não chegava a casa em saquetas, eram infusões de plantas que havia no quintal. Hoje fiz chá de lúcia lima, com as mesmas folhas. A minha casa ficou perfumada com este cheiro tão rural, tão nosso, tão distante.

Ao senti-lo, viajei. E voltei a percorrer a casa dos meus avós, a ouvir os risos dos primos, felizes, a correr pela quinta e a abrir a porta do galinheiro.
Caramba… Tenho tantas saudades deles.

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Deja Vu.

Não pensava, sinceramente, que veria imagens parecidas com as que registámos no ano passado, em Pedrogão Grande, durante os incêndios. Foram tempos complicados, de cobertura noticiosa. Fiquei em estúdio, não fui para o terreno mas nem por isso me consegui distanciar da imagem daquela estrada nacional onde tantas pessoas morreram. De forma voluntária, foi inevitável imaginar a aflição de alguém que percebe que os dias acabaram, que sente o fim, que depois daquilo… não haverá nada. Ter consciência é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior que nos pode acontecer, na vida. 

Ao ver as imagens da Grécia tive um arrepio. Achei que não iria ver isto de novo e… enganei-me.

Não vos consigo explicar o que se sente ao ler e repetir “26 pessoas pessoas foram encontradas carbonizadas, abraçadas”. Não consigo. Isto é um filme de terror.

13 meses separam as imagens.

Grécia, Julho 2018

Pedrogão Grande, Junho 2017

 

Fotografias: Google.pt

 

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O ÚLTIMO diário da bactéria

Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste.

Tenho de dizer 10 vezes para que se torne real na minha cabeça como está no papel da análise e no relatório da endoscopia. Morreste, HP e depois da tua morte não há mais nada. Sou-te sincera, ainda não sei bem como reagir a este resultado. Recebi um e duvidei, quis esperar pelo segundo, tu és perita em ‘falsos negativos’. Até já comprei um presentinho para assinalar o momento mas continuo a não encomendar as flores para o teu enterro nem marquei a data. É melhor fazer isso depressa. Aceitar. Com o velório, o funeral e o enterro, a noção da tua memória fica mais fácil. Como Iñaki Piñuel me ensinou a fazer, sobre as pessoas más que habitam a nossa vida, em algum momento, Tem dado jeito, confesso. Agora terei de o aplicar a ti.

Deixaste-me apática. Nestes 7 longos meses desde o teu diagnóstico, aconteceu tudo. 5 antibióticos, enjoos, náuseas, mal estar, cansaço. Mudei a vida, mudei os hábitos. Acalmei e descansei mais. Tentei ser melhor para mim e cuidar-me, para ser mais fácil. Não penses que me estou a fazer de coitadinha mas, sim, estou a queixar-me. Quem dera que apenas eu tivesse sentido isto, afinal, fizeste mal a tanta gente e vais continuar por aí. Infelizmente.

Sabes, nestes dias looooongos em que te carreguei disse muito mal de ti e da vida. Fartei-me de ti muitas vezes. Chamei-te nomes feios e desejei que desaparecesses, NA HORA. Além da minha família, só duas pessoas acompanharam esses momentos mais pesados. Essas alturas em que nem os pensamentos eram bons, eles ajudaram a erguer a parede invisível que bloqueia a parte mais negra da mente humana.

Morreste. Mas foste filha da mãe. O teu fantasma vai ficar para sempre porque deixaste (muitos) outros problemas aqui. O carácter crónico não se muda. Vai ser uma condição para o resto da vida. A parte boa é que há um diagnóstico. Sim, depois de desapareceres as queixas mantinham-se e tinha de haver uma razão. É uma amalgama de chatices no estomago: uma hérnia, grande demais que já está a ser altamente incómoda e mais umas tretas. Chega.

SA-TU-RA-DA.

Não sei que passa de uva me caiu da mão na noite da passagem de ano: se a da sorte ou a da saúde. A da resiliência não foi, com toda a certeza. A vida não é sempre a perder… mas 2018 já podia começar, hein?! Vamos a isso?