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O que fica dos 33. 7 de 7

Dos 33 fica o amor! O amor de tantas formas, com tantas matizes, com tantas cores e tantos sorrisos. Dos amigos, da família, daqueles que escolhemos… e o nosso. Primeiro sempre o nosso amor próprio e depois o outro. Os 33 devolveram-mo e em bom, em mais forte, mais coeso, mais consciente, mais real.

O amor tem um limite: chama-se dignidade. Li esta frase algures, já nem me lembro bem onde, mas nunca mais me esqueci. Não vale tudo, não se aguenta tudo, não se esquece tudo nem se pode querer tudo. Isso, simplesmente, não existe. A perfeição não existe e ainda bem. É por isso que há pessoas mais ‘adaptáveis’ que outras, mais ‘suportáveis’ que outras, mais tolerantes que outras.

Aos 33 li um livro que me vai marcar para sempre: ‘Amor Zero’ de Iñaki Piñuel. Está tudo ali: tudo o que não precisamos que sintam por nós, que não podemos deixar que nos façam. Concretamente, este livro fala de psicopatas e também de narcisistas. O autor admite que, ao longo da vida, nos cruzamos com 60 destas pessoas. E a lição aqui é saber distingui-las das outras e assumir, de uma vez, que não as merecemos. Não as merecemos. O erro de casting é só delas.

Mas não me vou demorar porque quero mesmo é falar-vos do amor pela positiva. Este ano, a minha irmã do meio (irmã do coração, quase como se de sangue) fez-me madrinha da Laura. Este passo vai manter-nos unidas para sempre, se é que já não ía acontecer, e isso é de um amor brutal, de uma confiança cega, de uma partilha inestimável. A Laura é um ‘bebé alegria’, como a Inês a baptizou: está sempre a rir, come a rir, anda a rir, olha para nós a rir, passa uma tarde comigo no carro, sempre a rir. Sim, também faz birrinhas e até chorou no momento do baptismo mas… nunca vi um bebé assim, desculpem a prepotência. Percebem qual a lição que a Laura já nos deu? Que é preciso sorrir, é preciso alegria, que tudo faz mais sentido se for assim, que se torna mais fácil se formos (ou tentarmos ser) felizes. E nós sorrimos apenas porque ela sorri.

Eu já era madrinha da Lara que, aos 13 anos, está mais alta que eu, calça um número maior que o meu, é um génio a matemática e a tocar guitarra (não sai à madrinha) e ainda diz que eu tenho ‘cabelos prateados’ e ‘linhas’ no rosto. Prooooonto, a Laura vai demorar mais tempo a dizer essas coisas (uff…) mas também ainda não dá estes abraços bons!

 

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O que fica dos 33. 5 de 7

Aos 33 repeti a amarga experiência do luto. Sim, também houve momentos de profunda tristeza neste ano que termina.

O preto é, por defeito cultural, a cor escolhida para representar a perda, a ausência de alguém que não mais volta… Para mim, não. Para mim, a cor do luto é o branco: a total imensidão, ao mesmo tempo que acalma, que sossega, que transmite paz. Como esta fotografia da nuvens, daquilo que existe acima de nós, do que não conseguimos ver nem é, sequer, palpável. E isso também faz parte do processo.

Recupero o que escrevi no final de 2017:

“Os 33 levaram-me uma pessoa que amo. E nunca vou deixar de amar. Um pessoa que me ensinou o sentido da família, que me ensinou a amar mesmo quando não é tudo perfeito. A falta é brutal, mesmo à distância… a falta é brutal. O amor pode ter várias formas. A distância física é muito pouco quando se ama alguém que foi um exemplo para nós. E que, sabemos, nos amava de volta. Mas não quero ficar na perda… Quero celebrar a sua vida. A imensa gratidão de o ter tido comigo 33 anos, de me ter dado nome, de me ter embalado e baptizado. As lições que deu. O dever que cumpriu. O olhar meigo, a bondade, o discernimento, a inteligência… Sim, era o mais inteligente de todos nós. As salvas no seu funeral que ainda hoje ecoam na minha cabeça lembram-me isto tudo”.

E sobre isto, não pretendo dizer mais nada. Não posso, mesmo, dizer mais nada. Porque eu ainda não fiz este luto e não sei se o conseguirei fazer.

Mas, infelizmente, os 33 levaram-me outra pessoa, talvez um dos primeiros responsáveis por aquilo que sou hoje. No seu funeral li-lhe uma pequena homenagem. Quando terminei, choravam todos menos eu, que não podia. O meu professor de História e Geografia de Portugal, Emílio Serra, cego, um homem FABULOSO. Pediram-me para partilhar o texto e hesitei sempre… agora é o momento.

“Querido amigo, a primeira coisa que lhe quero dizer é ‘desculpe’.
Por não ter chegado a tempo. Soube há poucas semanas que estava doente e a vida que me incentivou a seguir não deixa tempo para muito. Ou para quase nada.
E se aqui estou é por sua causa. Essa é a segunda coisa que lhe quero dizer. Há mais de 20 anos levou-me a um estúdio de rádio… Tudo começou aí, nessa segunda feira na Rádio Tágide, o programa chamava-se ‘Letras Sonoras’. O resto da história já sabemos.
Consigo ouvir agora a sua bengala a bater na tijoleira das escadas do bloco onde tínhamos aula. A sala 7, se não me falha a memória, era a sua. Nós, miúdos, nem conseguíamos perceber como lia braille. Foi das primeiras lições que nos deu. Mas houve mais: Ensinou-nós a ir contra a corrente quando dinamizou uma escola, levantou um grupo de teatro e o fez resistir várias décadas. Mostrou o que era a resiliência quando contou a história de uma namorada com quem não casou poque os pais imploraram pela alma do irmão que não casasse com um homem cego.
Era isso que o tornava especial. O facto de lhe faltar um sentido apurava todos os outros e também nos fez perceber isso. Era um profundo conhecedor de todas as matérias. Figura pouco consensual, aliás nunca o ouvi dizer que queria agradar a todos… sabia bem que esse era o caminho para o fracasso.
Poucas coisas o emocionavam como uma estreia de uma peça de teatro ou uma conversa em torno de uma mesa. Obrigada por nos ter dado também essa experiência, de uma riqueza imensa e que hoje ainda todos recordamos.
Fomos amigos 23 anos. E mesmo não estando juntos muitas vezes sei que nos compreendíamos como poucos.
Obrigada por ter sido o primeiro a acreditar em mim e naquilo que eu sou hoje, pelas mensagens no natal, e pela companhia de manhã.
Até sempre”.

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A comida. Sempre a comida.

A minha mãe tem um conjunto de frascos castanhos de acrílico, semi-transparentes, com uma tampa vermelha, daqueles que havia em tantos lares. Na casa dos meus pais ainda existem, são frascos que guardam açúcar, arroz, farinha, pão ralado, folhas de louro. Conheço-os desde sempre e até os estou a ver neste instante, na minha frente. Na verdade foi ali que, pela primeira vez, vi estes alimentos. Para mim, o açúcar, arroz, farinha, pão ralado e folhas de louro vinham dali. Claro que o tempo me fez perceber que os alimentos vinham de outros sítios e que apenas terminavam a viagem ali e, depois, no nosso prato (calma, eu sei de onde vêm os ovos e a massa!). O conteúdo daqueles frascos era a comida como sempre a conheci. Mas tudo muda. E, apesar de já não ter associado à minha existência apenas aqueles alimentos, recentemente tive de mudar ainda mais.

Fonte: Google.pt

A querida HP obrigou-me a um tratamento mais agressivo, com 2 antibióticos e isso enfraqueceu o meu organismo. Era (e é) preciso recuperar tudo porque viver sem sistema imunitário é semelhante a viver exposto a temperaturas extremas: o calor queima-nos mas o frio também e as consequências são imprevisíveis. Equilíbrio, precisa-se e urgente! Devido a esta ‘aventura’ com a HP optei por um aconselhamento mais sério e pela ajuda de outros profissionais (menos o meu super-médico) para me ajudarem na recuperação. A Dra. Ana Rita Lopes que já conhecem e podem ler nas ‘5 perguntas a…’ falou-me de um plano alimentar que tem resultado com vários pacientes. O plano chama-se Low FODMAPs, o nome é estranho mas é muito fácil explicar: FODMAPs são um conjunto de nutrientes que são mal absorvidos pelo organismo e que podem causar desconforto intestinal- distensão abdominal, dor abdominal, flatulência, diarreia e/ou obstipação. Estes nutrientes incluem a frutose, a lactose, os oligossacáridos (frutanas e galacto-oligossacáridos) e os poliálcoois.

Há nomes mais estranhos e por isso vou utilizar a tabela que a Dra. Ana Rita me facultou também para que percebam ainda melhor do que se trata.

 

FODMAPs ALIMENTOS
Frutose Mel, frutos, vegetais
Lactose Leite e derivados
Frutanas Cereais e farináceos, legumes, frutos
Galacto-oligossacáridos Leguminosas
Poliálcoois Adoçantes, frutos, vegetais

 

Este tratamento consiste em 6 semanas de um regime alimentar em que são restringidos alimentos mais ricos em FODMaps, de forma que o tecido intestinal mas também a flora gástrica consigam recuperar de forma muito eficaz e consistente. Durante todo este tempo, é importante anotar (escrever mesmo, sim) a reação do organismo aos vários alimentos: o que funciona para umas pessoas não é indicado para outras. Por exemplo, eu sou intolerante à cenoura (isto é outra conversa, a das intolerâncias) mas a cenoura surge como alimento a preferir nestas semanas; a laranja é aconselhada mas no meu caso não convém porque ainda estou a recuperar da HP. Mas, mais importante ainda, é seguir as indicações. Se se consumir algo que não está indicado, não tenham dúvidas: o organismo vai mesmo reagir.

Não espero com isto emagrecer (perdi 4 kgs e estou a recuperar) mas quero muito viver bem e, acima de tudo, viver melhor. Estou quase na quarta semana e sinto-me lindamente.

Isto funciona como tratamento e é mesmo. Não há alimentos melhores nem piores (excepção ao açúcar refinado, um veneno!), há alimentos que toleramos e outros que não nos fazem assim tão bem, pelo menos em algumas alturas. Acredito que a minha saúde vai melhorar muito, confio plenamente na Dra. Ana Rita.

No meu caso, é reaprender a comer, procurar, analisar, pesquisar e crescer muito enquanto consumidora. Se me virem num supermercado a ler rótulos, deixem-me ficar. Agora, é mesmo assim!

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Diário da bactéria #4

 

HP, vamos conversar.

Tu já és crescida, tens cerca de 20 anos, eu já vou a caminho dos 40, e já sabes que quando ‘um não quer, dois não fazem’. Eu não quero mais. Desculpa. Mas uma de nós tinha de ser adulta e tomar uma decisão.
Mas não é de ti… é de mim. Esta nossa relação já deu o que tinha dar. Eu sei que tu concordas. E não estar a ter piada nenhuma, confessa.
Eu dei-te oportunidade para estares por cá imenso tempo, nem sei bem quanto. Mas já chega. Daqui a umas semanas quando repetir os exames agradeço que já não estejas ou terei de tomar medidas drásticas.
Apesar de tudo… Não te vou atacar. Não. Quero apenas que vás embora e não voltes mais.
Pronto. Adeus. Nada de dramatismos, nada de choramingas. Nós não somos dessas coisas.

Olha, vou regressar ao trabalho.

Se quiseres saber de mim liga a televisão na TVI e TVI24 entre as 6h30 e as 10h, todos os dias. Não tentes invadir as instalações da empresa porque estão todos avisados e ninguém te vai deixar entrar. Não tentes atacar de surpresa porque já sabes que eu durmo pouco e nem sequer te passe pela cabeça atingir alguém de quem eu goste: aí serei ainda mais reativa.

Faz o que quiseres: vai correr, viajar, vai gerir um banco, pede bilhetes para o futebol, lê.

Addio, adieu, auf wiedersehen, goodbye.

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2017… Em fotos.

Começámos o ano a estrear casa nova, o novo estúdio da TVI. Foi em Fevereiro.

O ano em que ser feliz… Deixou de ser opcional e passou para o topo das prioridades. Ericeira, Março.

O lançamento do livro da minha querida amiga Margarida Vieitez. Março.

O ano dos 33… Inesquecível. Março.

O Diário da Manhã foi líder durante 4 meses. Obrigada! Abril.

A turma fabulosa de doutoramento. A tese pode não valer de nada porque eles valem tudo. Primeiro ano completo. Maio.

O meu trabalho faz-me voar. Porto Santo, Junho.

Paz. Férias, Agosto.

Embaixadora Semana Europeia do Desporto. Que orgulho!!! Setembro.

Renovar de alma. Barcelona, Outubro.

Sevilha, Outubro.

Este blog… Sem palavras. Outubro

O Centro Sagrada Família que conheci este ano. Novembro.

A equipa fabulosa que faz todos os dias o Diário da Manhã.

FELIZ 2017, sem dúvida que foi.

 

 

 

 

 

 

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2017… em palavras.

No momento que escrevo este post estou no cabeleireiro. Sitio mais inusitado para escrever, não é? Devia era estar a ler revistas com sugestões de vestidos para o fim de ano…
Dou por mim a pensar que talvez o cabeleireiro tenha sido das minhas acções mais constantes de 2017, assim como o ginásio. Não posso, não devo, nem quero fugir.
Mas…. Quem não gosta de quebrar a regra e escapar a um dever?

2017 foi ano de retomar esta capacidade de cumprir e quebrar, sem culpa. Metade do ano foi a fazer trabalhos de doutoramento. Incluindo aquele que tens 2 meses para fazer e a 2 semanas de entregar… É preciso começar do 0 porque está tudo fora do sítio. Trabalhos, aulas, conferências… Não há como escapar. A verdade é que metade do meu ano foi passado com olhos na política, na geoestratégia, na economia (que passei a adorar), na governance. Tão rica, tão feliz, tão mais adulta que me tornei com este conhecimento que adquiri. Se foi fácil? Prefiro dizer que valeu muiiiiito a pena. E valeu. Faria tudo outra vez. Mas agora… O caminho é outro.

2017 fez de mim uma pessoa ainda mais focada. Aprendi a dizer não. Voltei a conseguir perceber o que não quero e isso… É meio caminho andado para a resolução e revalidação pessoais. Durante uns 2/3 anos houve um hiato de alegria na minha vida. Acontece, às vezes acontece. Vamos ao fundo para depois apreciar melhor a subida. Deixamos de ver o sol para poder apreciar as estrelas. Hoje sei que foi isso mesmo: eu tinha as prioridades trocadas e não percebia. Só pela subida, pela conquista, que infindável capacidade de sorrir que readquiri… Valeu tudo. Voltei ao sorriso sem culpa, ao viver sem medo, ao coração aberto, à ajuda ao próximo, voltei a ter os meus amigos e a ter tempo com eles. Mas percebi também que se não conseguir fazer alguma coisa… Está tudo bem. O mundo não acaba, a vida não castiga… É só isso. Dou sempre o meu melhor, sempre. É isso é que conta.

Aprendi a ter expectativas -4. A não me desiludir com aquilo ou aquelas pessoas que afinal não são vitais para a minha existência. Aprendi a seleccionar. A filtrar más energias, toxicidade, show off, para bem da minha saúde. E posso dizer-vos… É maravilhoso.

Passei mais tempo com quem amo. Disse muito mais vezes ‘gosto de ti’ e recebi de volta. Cimentei amizades, renovei laços e votos… E tornei-me leve.

Reforcei a ideia que os estranhos são amigos que não conheço. Ganhei 10 pessoas maravilhosas na minha turma de doutoramento que vão ficar para toda a vida. Conheci convidados maravilhosos, histórias de vida apaixonantes, exemplos desconcertantes de quem tinha tudo para desistir e está ali, firme para o que vier mais.

Lancei um blog, este blog, que tanto me orgulha e me dá vontade para continuar.

Mas 2017 também me levou uma pessoa que amo. E nunca vou deixar de amar. Um pessoa que me ensinou o sentido da família, que me ensinou a amar mesmo quando não é tudo perfeito. A falta é brutal, mesmo à distância… a falta é brutal. O amor pode ter várias formas. A distância física é muito pouco quando se ama alguém que foi um exemplo para nós. E que, sabemos, nos amava de volta. Mas não quero ficar na perda… Quero celebrar a sua vida. A imensa gratidão de o ter tido comigo 33 anos, de me ter dado nome, de me ter embalado e baptizado. As lições que deu. O dever que cumpriu. O olhar meigo, a bondade, o discernimento, a inteligência… Sim, era o mais inteligente de todos nós. As salvas no seu funeral que ainda hoje ecoam na minha cabeça lembram-me isto tudo.

Sou uma pessoa com tanta sorte. E sou profundamente grata à vida por esta oportunidade de, dia após dia, ano após ano… Poder começar de novo.
Eu acredito tanto mas tanto que 2018 vai ser FA-BU-LO-SO.
Acreditem também. Juntos somos mais fortes.

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5 perguntas a Cristina Felizardo

A Cristina Felizardo é especialista em aconselhamento relacionado com processos de luto. O seu apelido faz jus à forma como encara a vida: sente-se assim, felizarda!

1- Mas o que é isto do luto?

A palavra luto pode ser bastante assustadora. Normalmente, quando sou convidada para uma conferência ou para dar uma palestra sobre o tema, inevitavelmente a reação das pessoas ao ouvirem a palavra luto é quase sempre a mesma: olhar arregalado e assustado, contração muscular do corpo e tensão no rosto, tal e qual como se tivessem sido atingidos por um soco no estômago vindo do nada. Não é mais do que uma reação primeiro de surpresa, depois de dor e por fim de defesa.

De facto, tal apenas acontece porque intimamente associamos o luto a uma perda difícil, à perda de alguém que amamos, que nos deixou sem aviso prévio, que nos faz doer de saudade, dor essa que tentamos minimizar fugindo, evitando ou confrontando.

O luto é isso tudo. É um processo de reação a uma perda emocional profunda, que decorre no tempo, de forma mais ou menos prolongada.

Se perdemos quem amamos, é suposto doer. E como não controlamos a vida, nem podemos evitar sofrer estas perdas, surge o luto como forma saudável para aprendermos a viver sem a pessoa amada.

Normalmente é aqui que consigo serenar a plateia e prosseguir com a palestra.

2- O luto é só por morte?

A morte dos nossos entes queridos é uma das causas do luto. E em Portugal, de facto, quando falamos de luto, culturalmente associamos o luto à morte. Mas cada vez mais, as pessoas já começam a associar a palavra luto a outro tipo de perdas, como por exemplo, quando uma classe profissional se sente defraudada nas suas expetativas e nas manifestações lemos cartazes como “Os enfermeiros estão em luto”.

Podemos identificar cinco causas principais que desencadeiam o processo de luto:

O afastamento da pessoa querida, que pode ser por morte, mas também, por divórcio ou separação conjugal, emigração e encarceramento;

O dano ao amor próprio no caso da amputação de algum membro, ou devido a alterações patológicas no corpo, como paralisia ou perda de autonomia motora;

A perda de fantasia de afeto, no caso da perda gestacional ou no nascimento de uma criança com deficiência;

A desvalorização social por perda de emprego ou desqualificação profissional;

O luto antecipatório que surge em contexto de doença degenerativa e/ou terminal.

Temos ainda os lutos censurados que estão associados ao luto por perda de animais de estimação e de objetos com valor afetivo.

3- Todos fazem o luto da mesma maneira?

Não há fórmulas para o luto. Ou seja, o luto é vivido de forma individual e solitária. Por três simples razões:

Não somos iguais. Todos temos traços de carácter e de personalidade que nos distinguem uns dos outros. Alguns mais otimistas e outros mais pessimistas. Alguns mais resilientes e outros menos adaptativos. Alguns mais pragmáticos e outros mais sonhadores.

Não temos o mesmo passado. Cada um de nós teve vivências distintas e únicas que nos deram experiências de perdas e de como lidar com elas. Podemos ter experiências de luto antigas que nos ensinam como lidar com uma perda recente.

Não amamos da mesma maneira. A intensidade do vínculo afetivo vai influenciar a forma e o tempo que demora este processo de luto.

4- Como posso ajudar quem está em luto?

Normalmente quando temos um familiar ou amigo a sofrer por uma perda profunda, ficamos, também nós, aflitos; primeiro porque empatizamos na sua dor, segundo porque ao termos a noção de quanto dói, queremos cuidar dele e aliviar o seu sofrimento. Afinal, cuidamos de quem amamos.

No entanto, se admitirmos que o luto é uma caminhada individual e solitária, em boa verdade, resta muito pouco que nós, família e amigos, possamos fazer para ajudar quem está em luto.

Mas aqui o pouco é muito, isso vos garanto. Basta apenas estar lá. Sem preencher os silêncios com conversas de circunstância, sem fazer juízos de valor, sem estar com pressa para que a dor passe. Basta estar lá pelo outro, ter disponibilidade para ele e escutar, livre de julgamentos, o que ele tem a dizer.

5- Para que fazemos o luto?

Essa é fácil! 😊

Para voltarmos a ser felizes!

Uma amiga uma vez disse-me: “Andamos todos tão apressados a ser felizes que deixamos de ter tempo para as tristezas”. O Luto é o tempo necessário para viver a tristeza do amor que perdemos. Só depois, a alegria voltará a ter espaço para regressar. Quando ambas as emoções encontram o seu equilíbrio, aí voltaremos a sentir a felicidade.

O que aprendi com a minha caminhada pessoal e profissional?

De que a vida é demasiado preciosa para não ser bem vivida.

Por isso, façam o favor de ser felizes!

Conheci a Cristina há cerca de um ano. Tal como desta vez, foi convidada do Diário da Manhã, da TVI e TVI24, foi num dos feriados de Dezembro. E foi melhor sinal que recebemos nessa manhã: valia a pena estar ali, mesmo quando o país estava (quase) todos a dormir. A forma como fala de luto é doce, como que a colorir uma mandala delimitada de negro e que apenas pode ser preenchida por cada um de nós. À medida que vamos conversando, a Cristina vai dando os lápis. Nunca falha na cor de que precisamos. E, ao fim de algum tempo, quando olhamos de novo… uma página está completa. Podemos apreciar, de longe, que está tudo lá. É assim que me sinto quando falo com a Cristina. Transmite paz, serenidade, doçura. E sorri. Sim, para se falar de luto é preciso sorrir. Luto não é (apenas) chorar. Luto é aceitar, erguer a cabeça e agradecer a vida de alguém ou o tempo que passou na nossa (vida). É celebrar! Nem sempre temos capacidade de o fazer. É aqui que a Cristina, com um sorriso imenso, faz magia: uma luz, um sinal, uma palavra. Qualquer coisa pequenina pode significar tanto neste processo… e quem já passou por isto é uma esperança para quem chegou agora.

Sim… todos passamos por isto. Sem excepção. Nesta altura do Natal estamos mais vulneráveis aos sentimentos. E, às vezes, muita vezes…. não escolhemos o que sentimos. Conseguimos, isso sim, permitir que nos faça bem ou mal. Aceitar é fundamental mas… seguir em frente, também!

 

Podem encontrar a Cristina em  www.cfeliz.pt

 

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5 perguntas a Ruben Alves

Domingo foi a ante-estreia do documentário “As Vozes do Fado” realizado por Christophe Fonseca e Ruben Alves, que dirigiu “A Gaiola Dourada”.Conversei com o Ruben, no final sobre esta música tão portuguesa.

 

1- Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre fado?

Surgiu do convite que me foi feito pela Universal (editora) para fazer um disco sobre o fado e eu então fui ter com a nova geração, quem eu achava engraçado cantar os temas da Amália e de repente pensei ‘eu vou estar com eles mas porque é que eu não pego na minha câmara e vou pelas ruas e peço para me falarem do fado?’. Achei super interessante do que se está a passar agora, esta nova geração de jovens, um bocado ‘in’, que ouve electro mas que ao mesmo tempo sentem o fado. Há uma sequência no início onde estão uns jovens guitarristas que são todos super punk, jovens de 18 anos, 20 anos, super punk e ao mesmo tempo gostam do fado e estão a tocar viola como se fosse uma guitarra eléctrica. Acho isso maravilhoso e deu-me vontade de dizer ‘espera lá, vou mostrar isso’. Mas não só! Obviamente que depois dentro do fado queria também uma credibilidade e fui ter com o prof Rui Vieira Nery para ele perceber e quando ele me disse ‘espere lá, houve o fado dançado, a influência de África’. Fiquei pasmado e fui ter com os miúdos dos arredores, vindos de África que me diziam que não sabiam o que era o fado mas agora estavam a perceber. Acho isso fantástico!

2- Faz sentido mostrar o fado mas também explicar as origens?

Exactamente. Mas ao mesmo tempo pensei ‘será que as pessoas não estão já fartas de fado? E não sabem já isto tudo de cor?’ E afinal apercebi-me que há muita gente que não sabe das origens, de onde vem… se alguma coisa perceberam melhor é espectacular.

3- É um documentário sobre o fado ou sobre Amália?

Não, é um documentário sobre o fado. Agora, há uma parte, uma homenagem, obviamente à diva, aquela que foi arrebatadora que levou o fado para o mundo. Acho super interessante por exemplo ver um rapaz como o Vhils que hoje em dia está no mundo inteiro a trabalhar o seu street art aceitar o desafio que eu lancei para por uma Amália em calçada, na parede. E de repente ele disse ‘sim, tem tudo a ver, eu sou urbano, o fado é urbano, faz todo o sentido. Vamos fazer’.

4- E faltou alguma coisa aqui?

Falta imensa coisa… o problema é escolher para 1h20, tentar pôr tudo, de vez em quando é só um cheirinho de alguma coisa, de alguma pessoa, mas não podia… o fado nunca mais pára, há muitas pessoas que eu gostava de ter tido mas não estavam livres, não se podia e eu não podia filmar durante 2 anos. Filmei alguns meses, ía e voltava mas senão teria de ser feito um documentário sobre 5 anos e eu não podia fazer isso. Havia muitas coisas para se fazer, por exemplo, falar com a Björk que quando está a pôr música e põe Amália, a voz da Mariza… gostava de perguntar o que sente ao fazer isso.

5- E o fado uma palavra?

Numa palavra? Fiz tanto essa pergunta a toda a gente… a Mariza diz ‘não há uma só palavra, há muitas’ para descrever o que é o fado. Eu se calhar diria portugalidade. Quando se percebe fado  percebemos a alma portuguesa.

 

 

Quem não se lembra d’ “A Gaiola Dourada”? Rimos todos até mais não, não foi? Pois foi. Por ter sido tão bom, as expectativas em relação a este “As Vozes do Fado” era alta. Por isso e porque já tinha visto uma compilação de imagens recolhidas no estúdio onde Amália gravava “à primeira”, como lembra no documentário a irmã Celeste.

Eu adoro fado. Sou muito suspeita, para mim 1h20 passou a correr, era capaz de ver o dobro. O Ruben Alves pediu a cada fadista uma viagem a um local que considerassem especial. Há de tudo: Caixa Alfama, Museu do Fado, Largo da Severa, Coliseu dos Recreios, uma tasca no Porto, uma viagem pela Ajuda… e depois há os fados… que valem tudo. Sabemos todos, todos, todos, Amália já os eternizou. Mas, para mim, o momento mais inusitado é aquele em que Vhils mostra uma parede composta por pedras da calçada, onde se vê a imagem de Amália e diz: ‘faz todo o sentido, Amália faz chorar as pedras da calçada e entretanto… deve chover’. É de arrepiar, rir, emocionar, do início ao fim.

O Ruben Alves e o Christophe Fonseca têm uma edição irrepreensível e o documentário uma qualidade de fotografia incrível. Não percam a oportunidade, assim como eu não deixei o Ruben ‘escapar’, só ía assistir e decidi depois que tinha de registar o momento. O realizar estava feliz pelo sucesso do documentário e eu em êxtase por voltar a ter um gravador nas mãos! É tão bom ser jornalista e estar no sítio certo, à hora certa  (ainda que com coisas/assuntos muito simples).

P.S.- ‘Definir fado numa palavra’ foi um pedido feito a todos os intervenientes no documentário. Achei por bem devolver a pergunta ao realizador. Vão poder confirmar quando chegar ao circuito comercial, depois de cumpridos compromissos contratuais. Tem co-produção TVI.