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Vamos olhar para o trânsito?

 

Sair de casa e enfrentar o trânsito, todos os dias, pode ser uma verdadeira aventura. Nós, de manhã, não temos grandes problemas com isso, a estrada é (quase) toda nossa. Encontramos padeiros, vigilantes, pessoas que vão apanhar transportes muito cedo e, eventualmente, a polícia. Sim, também paramos em operações de fiscalização, assim a uma média de 4 por ano. É uma loucura, acho até que já nos conhecem a todos, tantas são as vezes que nos mandam parar. A pergunta é sempre a mesma, depois de apresentados os documentos, ‘consumiu bebidas alcoólicas?’ (bem sei que faz parte dos procedimentos!!!)… Até deve fazer algum sentido: eu, aquela hora, sozinha, com olheiras que chegam ao queixo, olhos de sono, enrolada com frio e música num volume (muito) alto. Devo estar alcoolizada. Só posso. Preencho todos os requisitos, entendo perfeitamente, mas nunca digo porque estou acordada aquela hora. Quando isso acontece é avisar a equipa ‘estou numa operação STOP’ e pronto. Fazemos todos o mesmo e temos imensa sorte que não demoramos muito: está tudo em ordem e àquela hora a concorrência no trânsito é fraca… Siga para Queluz de Baixo.

Mas… Nem toda a gente tem essa sorte. As pessoas que saem de casa às horas ditas normais podem ganhar ‘um brinde’: pode surgir na A1, IC19, VCI, Ponte da Arrábida… Eu sei lá. Às vezes surge em dose dupla, há manhãs para esquecer. Dias de chuva, então, é certinho, até dá para adivinhar. Alguns dão reportagens, devido à dimensão e problemas que provocam, outros ficam apenas com o meu relato.

 

Mas é sempre assim: No estúdio eu vejo o trânsito pelos olhos do iPad, a informação transmitida por satélite, na aplicação, reproduz e, tempo real, o que se passa nos principais acessos à Lisboa e ao Porto, às vezes, também, noutros pontos do país. Tempo de demora, sinalética com cores dos semáforos, sentidos do trânsito… De manhã tudo conta, tudo é preciso, tudo faz sentido, tudo ajuda a ‘fugir’ por qualquer lado e não demorar uma eternidade a deixar os miúdos na escola, ou para chegar AQUELA reunião a horas… Caramba, há dias difíceis e, mesmo em estúdio, não consigo deixar de sentir aquela dor de quem está preso dentro de um carro, numa qualquer via do país e a pensar ‘tão bem que eu estava na cama’. Sou solidária. Sou mesmo.

Ali, eu tento tudo, em tempo real: receber a informação do editor, que é o primeiro a ver o mapa e a ter contacto com a realidade e, depois ma transmite a mim, e ler-vos tudo de forma clara, curta e concisa. E, também eu, faço tudo para evitar ‘acidentes’: o trânsito é feito em andamento. Esta é a sequência: sair do ecrã 4×4, caminhar com alguma segurança pelos 20 metros que me separam da mesa, olhar para os monitores e confirmar que a informação está correcta e… Sentar!

 

E… Respirar porque correu tudo bem: ninguém caiu, ninguém se enganou e a informação foi transmitida. Não importa fazer, queremos fazer bem!! Não é um esforço hercúleo mas exige grande coordenação entre toda a equipa: de estúdio e régie: o alinhamento é alterado e posso não ir para a mesa… Num segundo tudo muda, a actualidade impõe-se!

Nem eu imaginava que conseguia acompanhar este ritmo que o Diário da Manhã impõe mas a verdade é que tudo é possível. Depois do trânsito, seguimos alinhamento. Felizes.

 

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Citius, altius, fortius.

Contar a história do livro “Tocando os extremos” é contar a história do Nuno España, uma pessoa que ‘resolveu’ dar a volta a uma volta que a vida lhe deu. Não há como fugir a este início porque a verdade não tem nuances: o Nuno começou a correr para reagir à perda de uma das pessoas mais importantes da sua vida: o pai. A corrida já existia sem ser um hábito, a mãe conta que, quando regressavam a Lisboa, da casa de família em Colares, o Nuno ía a correr e só queria chegar mais longe, sempre. Nuno tinha 13 anos e muito longe de imaginar a importância que a corrida ía ter na sua vida, como escreve a Carla  Rocha. E é bem verdade. O cunhado desafiou-o para a meia-maratona da ponte Vasco da Gama e como  não resiste a desafios, aceitou. Achou que eram favas contadas… mas a falta de preparação deu-lhe logo ali a primeira aula para a vida. Depois disso veio mais outra, e outra corrida… e o Nuno a querer sempre mais. Até que achou que devia fazer uma maratona. A atleta olímpica Rosa Mota ainda o tentou  demover, a pedido da mãe: “ah, meu filho, olhe que não é o dobro, é pior! Tem de ter cuidado!”. Aquelas palavras foram o estímulo de que precisava… para avançar. Tudo ao contrário. A primeira maratona “100 maratonas, 100 amigos” foi a que lhe custou mais mas também aquela a que mais significado teve: é uma prova com uma vertente social, as inscrições revertem para várias instituições entre elas o Movimento ao Serviço da Vida, com o qual tem uma ligação estreita (faz parte da Direcção).


Azores Trail

 

Depois disto… veio a maratona de Lisboa e a do Porto… e a Comrades Marathon. Nada mais que uns ‘simples’ 89 quilómetros a subir, na África do Sul. O slogan desta maratona é “It will define you” e definiu, de facto: “a Comrades é a maratona de uma vida”, admite. Mas antes disto, sim… ainda antes, o Nuno se tinha proposto a fazer uma maratona por fim-de-semana. Acontece que um desses fins de semana estava em branco. E agora? Claro que procurou uma alternativa. Havia a prova Challenge Lisboa, um triatlo: nadava, pedalava e corria. Desafio novo. Gostou tanto que… partiu para o IronMan, o triatlo mais difícil do mundo. A estreia foi em Frankfurt mas depois já esteve Sevilha, Lanzarote, Copenhaga, Barcelona, Cascais, Roterdão.

IronMan Copenhaga

E agora? Parar aqui? Nem pensar. Depois de tudo isto, surgiu a ideia de fazer um triatlo nas condições mais difíceis do mundo. Portanto, seriam os IronMan Xtreme. Qual a diferença? Desta vez quase 4 quilómetros a nadar em águas com temperaturas a rondar os 10graus (ou menos), 180 quilómetros a pedalar, sempre a subir, e depois uma maratona, 42quilómetros em condições de montanha, com frio e gelo. Tudo seguido, tudo sem parar. No limite os atletas podem demorar até 17horas para completar a prova. Em todo o mundo, apenas 19 pessoas concluíram estas provas, Nuno foi uma delas:  Norseman (Noruega), Swissman (Suiça) e Celtman (Escócia) a ultima já em 2017. Fazendo as contas, em 4 anos, o Nuno participou em 46 provas, entre Maratonas, Meias-maratonas, Triatlo, IronMan, Trails, Corridas.

 


IronMan Lanzarote

Sim, é viciado na corrida “claro que é um vício que começou por ser uma catarse, mas que hoje é um
vício. Se não corro, sinto falta. E, sendo um vício, é um vício controlado, ou seja, não quero que o
desporto que faço hoje signifique mais do que o meu bem-estar”, assume. Os amigos revelam no livro que “há atletas que fazem uma maratona em 3h30 e depois querem fazem a maratona em 3h25 e depois em 3h25 e assim sucessivamente. Ser cada vez mais rápidos. O Nuno não. O Nuno não quer fazer o mesmo caminho duas vezes. Não lhe interessa o tempo. Ele fez uma maratona e está feita. Agora ele quer fazer uma ultramaratona”. Por isso é que agora o objectivo se chama Maratona das Areias, 250 quilómetros no deserto do Sahara, o percurso muda todos os anos e é composto por 6 estágios em 7 dias. Coisa pouca.

E pronto. É esta a história do Nuno. Ficamos por aqui, certo? Errado.

Soube deste livro através de um convite da Carla Rocha para o lançamento. Assim que li a sinopse achei a história fantástica e pedi para falar com os dois. O Nuno e a Carla foram convidados do Diário da Manhã e, depois, acabámos por combinar um almoço. Foi tudo um bocado tipo blind date. Tal como a Carla, que não conhecia o Nuno, também achei que ía encontrar um ‘maluquinho das corridas’, com calção de lycra, que se inscreve em todas as provas e sabe todos os nomes de suplementos proteicos na ponta da língua. Errado. Profundamente errado. Durante esse almoço, o Nuno repetiu com alguma insistência a frase “não escolhes o que sentes, mas podes escolher o que fazes com isso”. Percebi que esse era um dos seus pontos cardeais, aquelas máximas de vida que se tem mas que também se escolhem ter. Na verdade, quem nunca lidou com a perda? Com o vazio? Com o chão a fugir debaixo dos pés? E depois… qual a solução? Seguir, não é? O que se faz com isso é que muda tudo. A vida ensinou-o a pensar assim. O Nuno começou a correr depois da morte do pai. Na altura não percebeu mas isso veio a salvá-lo, funcionava como uma catarse. “Começas a corrida de uma maneira e acabas de outra”, diz, e essa reinvenção é uma adição. É um vicio, porque faz sentir bem, porque a pessoa não quer parar, só quer mais, novas experiências, novas sensações. Foi esse desejo que o levou às provas mais duras do mundo.


IronMan Frankfurt

Naquela mesa de restaurante percebi que o Nuno era um inconformado (o livro só li depois, logo no dia seguinte, confesso): nas provas de atletismo, de triatlo… e nos negócios… “depois de um MBA no Dubai vim para Portugal com uma vontade imensa de abrir um negócio. Com os amigos, optámos por um negócio de cerveja artesanal. No início era complicado, a distribuição era feita em pequena escala, depois alargámos os objetivos e começou a correr melhor mas a verdade é que o negócio precisava de tempo e nenhum de nós iria deixar os seus empregos para se dedicar exclusivamente aquilo”. Mas a marca existe, a vontade está lá e quando for possível… vai (re) surgir o homem de negócios. Não tenho dúvida que vai acontecer.

Enquanto escrevia esta história perguntei ao Nuno se gostava de Jorge Palma porque me pareceu que sim. Acertei. ‘A gente vai continuar’ diz várias coisas que parecem a vida do Nuno: enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar. Neste caso, enquanto houver pessoas para ajudar, o Nuno vai continuar. Porque este livro é para ajudar a Casa das Cores, os meninos que quando nascem, às vezes, já têm uma ‘prova definida’, um caminho traçado, um destino escolhido e, normalmente, é mau. Mas também… enquanto houver vida e provas e superações… o Nuno lá estará.

Esta história é do Nuno mas foi contada pela Carla Rocha, de forma excepcional. A Carla odeia desporto… ou odiava… já não sei bem. E já tinha escrito uma outra biografia mas… este foi um desafio tão grande que deu por ela “a correr à volta de casa, até ao meu limite, para depois parar e escrever e descrever o que estava a sentir”. Porque ‘tocar os extremos’ cada um saberá o que é: 200metros, 3 quilómetros, 10, 20, 250. Ou, às vezes, nada disto: uma prova de superação é levantar da cadeira, atravessar a estrada, ou apenas andar.

Acredito muito que apenas nós podemos salvar a nossa vida mas há pessoas que podem acrescentar coisas boas à nossa existência. O Nuno é, seguramente, uma delas. A Carla escreveu que é fácil gostar-se do Nuno, que ele é entusiasta, meigo, inconformado. Podia descrever-vos todas as qualidades  numeradas pelos amigos no livro mas não faz sentido. Digo-vos apenas que, no lugar do Nuno, outra pessoa teria avançado para este livro há 2 anos, logo quando surgiu a proposta. Ele não, quis apresentar uma história estruturada, com sentido, com lógica ou seja, quis acabar todas as provas a que se propunha para que a história fosse completa, exemplar.

 

No prefácio da obra, o Professor Gentil Martins recupera o que o padre Henry Didon, católico, afirmou
pela, primeira vez em 1881 «Citius, Altius, Fortius» (o mais rápido, o mais alto e o mais forte) e lembra que ‘ o mais importante não é ganhar mas dar sempre o seu melhor em todas as situações que a vida proporciona’(…) o propagar estes princípios é contribuir para uma sociedade mais valente, mais
forte, mais recta, mais generosa e mais solidária’.

Para terminar, deixo-vos com aquele que é, talvez, o maior ensinamento do Nuno: Se passarmos algo negativo na vida e não aprendermos nada com isso… aconteceu porquê? Vale a pena pensar nisto.


O livro ‘Tocando os Extremos’ estará nas livrarias no próximo mês de fevereiro. As vendas revertem
na totalidade para a Casa das Cores.

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Porto Seguro

Porto Santo foi avistado há 6 séculos. Chamaram-lhe Porto Seguro por ter sido encontrado depois de uma tempestade. Dizem que Cristóvão Colombo se perdeu por lá… eu também mas cheguei algum tempo depois.

Há um tempo para tudo, diz uma passagem da Bíblia e é bem verdade. Há um tempo para tudo… como houve um tempo para eu conhecer esta ilha. Acredito que nada acontece por acaso: as pessoas que conhecemos, as decisões que tomamos, os locais que visitamos. Porto Santo escolhe-nos, envolve-nos. Podem não acreditar mas nesta ilha eu não tenho crises de asma, não tenho insónias, não tenho frio.

No verão estive ali na altura dos ventos fortes que atingem o Funchal, várias vezes por ano. Durante esse tempo, nada chegava a Porto Santo: nem comida, nem jornais, nem medicamentos, só pessoas e vindas do continente. Como nos meses de inverno em que o Lobo Marinho pára para revisão e deixa de fazer as viagens e carregar mantimentos. Os habitantes comem apenas o que a ilha dá, o que a terra produz. Eu senti isso este ano: voltei ao passado, quando também não havia assim tanta fartura de coisas. Ficamos limitados e… soubemos viver. Não é que afinal… é preciso muito pouco para existir? Admiro muito as pessoas que sabem viver com muito e com pouco, eu fui habituada assim também, mas os tempos são outros. O ‘muito’ e ‘pouco’ são completamente  diferentes. Naqueles dias voltamos aos mínimos e recordamos porque é que aquela terra é tão especial: porque ali não é preciso nada para ser feliz. Ali há tudo o que faz falta, nas quantidades necessárias. Até as pessoas são as necessárias… cerca de 4 mil.

Há tantas coisas para vos mostrar de Porto Santo que hoje deixo só as fotografias de um amanhecer único e mágico. O sol nasceu para mim. Espero que consigam ouvir o mar… e ficar em paz.  

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5 Perguntas ao Chefe Manuel Santos

 

O chefe Manuel é o responsável pela cozinha doHotel Vila Baleira na ilha de Porto Santo. Este ano tem 600 pessoas para o jantar de passagem do ano, as mesmas que estão na unidade hoteleira desde dia 29. A logística toda obriga a uma organização tremenda porque o hotel está a funcionar todo o ano. (Mais logo mostro-vos imagens da sala de jantar… Agora ainda não posso! Partilho apenas o nascer do sol nesta ilha fantástica!)

1- O que é mais difícil para fazer está preparação de final de ano?
Tempo. Muitos clientes, os timings tem de ser feitos…. A passagem de ano tem data e hora marcadas e são coisas diferentes do resto do ano. São coisas mais elaboradas que precisam de mais tempo de preparação.

2- E o facto de Porto santo ser uma ilha dificulta tudo, não é?
Sim, a parte da logística, armazenamento tem de ser tudo pensado previamente mais ou menos 1 mês, 1 mês e meio, para ter tudo aqui a nível de matéria prima. Temos as novidades das esculturas de gelo este ano, teve de ser tudo pensado com 2 meses de antecedência para ter tudo aqui a tempo.

3- O que não pode faltar numa noite destas?
Nada. Numa noite destas não pode faltar nada. Tem de ter tudo: desde o serviço, à gastronomia, à decoração… Tudo isto faz a noite de final de ano diferente de todas as outras.

4- E números? Pessoas e quantidades de comida necessários?
A nível de staff na cozinha neste momento somos 16. No restaurante são cerca de 30. Depois há a parte das compras, da organização… No total cerca de 50/60 pessoas envolvidas neste processo. Depois, comida: peito de pato são 40 quilos, lombo de vaca à volta disso também, bacalhau um bocadinho mais, uns 50/60 quilos e leitão, também. Marisco são 30 quilos de camarão e mexilhão. Depois há uma parte importante que é da fruta e dos legumes, não é tanta quantidade mas é muito importante. É o que as pessoas comem mais.

5- E, para um chefe, é mais desafiante uma noite destas ou ter um hotel a funcionar todo o ano?
É desafiante por causa do timing que é pouco, leva-nos ao limite porque temos de estar sempre focados no que temos para fazer e não dá para relaxar. Tenho a minha equipa a trabalhar de manhã à noite, há 3 dias. Se fosse só esta noite, se fossem só os 600 jantares era mais simples mas esses clientes já estão cá desde dia 29, e é preciso pequeno almoço, almoço e jantar. Todo o tempinho que temos, temos de aproveitar para a passagem de ano.
O desafio ainda maior vai ser amanhã… O pessoal vai estar todo de rastos e amanhã é preciso fazer pequeno almoço e Brunch. Volta tudo ao início… Amanhã é que vai ser difícil porque hoje não devemos terminar antes das 3h da manhã.

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2017… em palavras.

No momento que escrevo este post estou no cabeleireiro. Sitio mais inusitado para escrever, não é? Devia era estar a ler revistas com sugestões de vestidos para o fim de ano…
Dou por mim a pensar que talvez o cabeleireiro tenha sido das minhas acções mais constantes de 2017, assim como o ginásio. Não posso, não devo, nem quero fugir.
Mas…. Quem não gosta de quebrar a regra e escapar a um dever?

2017 foi ano de retomar esta capacidade de cumprir e quebrar, sem culpa. Metade do ano foi a fazer trabalhos de doutoramento. Incluindo aquele que tens 2 meses para fazer e a 2 semanas de entregar… É preciso começar do 0 porque está tudo fora do sítio. Trabalhos, aulas, conferências… Não há como escapar. A verdade é que metade do meu ano foi passado com olhos na política, na geoestratégia, na economia (que passei a adorar), na governance. Tão rica, tão feliz, tão mais adulta que me tornei com este conhecimento que adquiri. Se foi fácil? Prefiro dizer que valeu muiiiiito a pena. E valeu. Faria tudo outra vez. Mas agora… O caminho é outro.

2017 fez de mim uma pessoa ainda mais focada. Aprendi a dizer não. Voltei a conseguir perceber o que não quero e isso… É meio caminho andado para a resolução e revalidação pessoais. Durante uns 2/3 anos houve um hiato de alegria na minha vida. Acontece, às vezes acontece. Vamos ao fundo para depois apreciar melhor a subida. Deixamos de ver o sol para poder apreciar as estrelas. Hoje sei que foi isso mesmo: eu tinha as prioridades trocadas e não percebia. Só pela subida, pela conquista, que infindável capacidade de sorrir que readquiri… Valeu tudo. Voltei ao sorriso sem culpa, ao viver sem medo, ao coração aberto, à ajuda ao próximo, voltei a ter os meus amigos e a ter tempo com eles. Mas percebi também que se não conseguir fazer alguma coisa… Está tudo bem. O mundo não acaba, a vida não castiga… É só isso. Dou sempre o meu melhor, sempre. É isso é que conta.

Aprendi a ter expectativas -4. A não me desiludir com aquilo ou aquelas pessoas que afinal não são vitais para a minha existência. Aprendi a seleccionar. A filtrar más energias, toxicidade, show off, para bem da minha saúde. E posso dizer-vos… É maravilhoso.

Passei mais tempo com quem amo. Disse muito mais vezes ‘gosto de ti’ e recebi de volta. Cimentei amizades, renovei laços e votos… E tornei-me leve.

Reforcei a ideia que os estranhos são amigos que não conheço. Ganhei 10 pessoas maravilhosas na minha turma de doutoramento que vão ficar para toda a vida. Conheci convidados maravilhosos, histórias de vida apaixonantes, exemplos desconcertantes de quem tinha tudo para desistir e está ali, firme para o que vier mais.

Lancei um blog, este blog, que tanto me orgulha e me dá vontade para continuar.

Mas 2017 também me levou uma pessoa que amo. E nunca vou deixar de amar. Um pessoa que me ensinou o sentido da família, que me ensinou a amar mesmo quando não é tudo perfeito. A falta é brutal, mesmo à distância… a falta é brutal. O amor pode ter várias formas. A distância física é muito pouco quando se ama alguém que foi um exemplo para nós. E que, sabemos, nos amava de volta. Mas não quero ficar na perda… Quero celebrar a sua vida. A imensa gratidão de o ter tido comigo 33 anos, de me ter dado nome, de me ter embalado e baptizado. As lições que deu. O dever que cumpriu. O olhar meigo, a bondade, o discernimento, a inteligência… Sim, era o mais inteligente de todos nós. As salvas no seu funeral que ainda hoje ecoam na minha cabeça lembram-me isto tudo.

Sou uma pessoa com tanta sorte. E sou profundamente grata à vida por esta oportunidade de, dia após dia, ano após ano… Poder começar de novo.
Eu acredito tanto mas tanto que 2018 vai ser FA-BU-LO-SO.
Acreditem também. Juntos somos mais fortes.

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O casaquinho

Comecemos pelo início.

Conheci o Centro Sagrada Família (CSF) há umas semanas quando a tia Suzete me desafiou a visitá-lo. A tia Suzete é uma senhora maravilhosa, de 73 anos, mais activa do que eu e que faz mesmo a diferença na vida das pessoas (na minha também): é voluntária. Há uns tempo desafiou-me para conhecer um espaço que eu não sabia que existia, fica entre os prédios mais altos de uma avenida de Algés e a CRIL. O CSF é uma IPSS que pertence à Fundação Obra Social das Religiosas Dominicanas Irlandesas, que também desenvolve actividades no Colégio do Bom Sucesso e na Casinha de Nossa Senhora.

O Centro apoia quase 90 famílias, cerca de 300 pessoas e destas, metade é crianças. Na hora em que eu conheci o espaço e o trabalho desenvolvido e a Dra. Amélia percebi que podia ser útil. Fiz uma recolha de roupas lá em casa e pedi a algumas pessoas brinquedos para oferecer às crianças este Natal- elas não precisam de muito, só querem uma coisa nova, embrulhada, para ser só sua. Custa muito pouco fazer uma criança feliz… mas além das crianças era preciso ajudar as famílias. A tia Suzete conseguiu roupa nova para quase todas, através de uma empresa que se dispôs a ajudar, de imediato. A entrega foi ontem e estes são os cabazes preparados para cada uma das pessoas e os presentes para os seus filhos.

Mas antes desta entrega estive com amigas do Centro de Psicologia de Almada que também fazem recolha de roupa para ajudar pessoas carenciadas. Já me tinham dito para levar roupas mas ontem é que foi! Várias caixas e sacos com coisas que vão, seguramente, tornar o Natal destas pessoas mais quentinho.

Mas, no meio de todas as dádivas, fizeram questão que trouxesse uma. Um casaquinho de lã, feito à mão, de cor verde.

Diziam-me que era especial, depois percebi porquê. Este casaco de lã verde, foi feito por uma senhora que sofre de Parkinson. Mas a vontade de ajudar era tanta que, mesmo com todas as óbvias limitações, esta senhora tricotou o casaquinho. Queria muito ajudar e só isso a fez resistir… um ano. Um ano foi o tempo que demorou a terminá-lo e entregá-lo para que pudesse aconchegar uma criança de meses. Na altura que o entreguei no CSF chorámos todos, cada um à sua maneira.

Está cumprido. Demorou mas quando a vontade de ajudar é genuína, tudo se alinha e o propósito é atingido. É uma lição grande de força de vontade e resiliência.

Como imaginam, há muitas pessoas a precisar de ajuda. Dou-vos o exemplo da D. Fernanda que conseguiu uma casa num prédio social e está tão feliz porque também vai ter um quadrado de terra para uma horta. Do José, outrora sem abrigo, hoje numa habituação social também mas ainda a compor o seu espaço. E que agradece profundamente a ajuda que lhe dão mas também tem a plena consciência que tem um papel activo (e tão fundamental) na reconstrução da sua vida.

São só dois exemplos de pessoas que não desistem e todos os dias seguem em frente e tentam mais um bocadinho. Há quase 90 famílias. Este post não é para dizer o que fiz. É para vos alertar que falta muito mais: o José precisa de um fogão, frigorifico, micro-ondas. A Dona Fernanda, das coisas de todos os dias.

Se puderem ajudar, não hesitem. Tenho a certeza que o vosso Natal vai correr muito melhor.

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5 perguntas a Cristina Felizardo

A Cristina Felizardo é especialista em aconselhamento relacionado com processos de luto. O seu apelido faz jus à forma como encara a vida: sente-se assim, felizarda!

1- Mas o que é isto do luto?

A palavra luto pode ser bastante assustadora. Normalmente, quando sou convidada para uma conferência ou para dar uma palestra sobre o tema, inevitavelmente a reação das pessoas ao ouvirem a palavra luto é quase sempre a mesma: olhar arregalado e assustado, contração muscular do corpo e tensão no rosto, tal e qual como se tivessem sido atingidos por um soco no estômago vindo do nada. Não é mais do que uma reação primeiro de surpresa, depois de dor e por fim de defesa.

De facto, tal apenas acontece porque intimamente associamos o luto a uma perda difícil, à perda de alguém que amamos, que nos deixou sem aviso prévio, que nos faz doer de saudade, dor essa que tentamos minimizar fugindo, evitando ou confrontando.

O luto é isso tudo. É um processo de reação a uma perda emocional profunda, que decorre no tempo, de forma mais ou menos prolongada.

Se perdemos quem amamos, é suposto doer. E como não controlamos a vida, nem podemos evitar sofrer estas perdas, surge o luto como forma saudável para aprendermos a viver sem a pessoa amada.

Normalmente é aqui que consigo serenar a plateia e prosseguir com a palestra.

2- O luto é só por morte?

A morte dos nossos entes queridos é uma das causas do luto. E em Portugal, de facto, quando falamos de luto, culturalmente associamos o luto à morte. Mas cada vez mais, as pessoas já começam a associar a palavra luto a outro tipo de perdas, como por exemplo, quando uma classe profissional se sente defraudada nas suas expetativas e nas manifestações lemos cartazes como “Os enfermeiros estão em luto”.

Podemos identificar cinco causas principais que desencadeiam o processo de luto:

O afastamento da pessoa querida, que pode ser por morte, mas também, por divórcio ou separação conjugal, emigração e encarceramento;

O dano ao amor próprio no caso da amputação de algum membro, ou devido a alterações patológicas no corpo, como paralisia ou perda de autonomia motora;

A perda de fantasia de afeto, no caso da perda gestacional ou no nascimento de uma criança com deficiência;

A desvalorização social por perda de emprego ou desqualificação profissional;

O luto antecipatório que surge em contexto de doença degenerativa e/ou terminal.

Temos ainda os lutos censurados que estão associados ao luto por perda de animais de estimação e de objetos com valor afetivo.

3- Todos fazem o luto da mesma maneira?

Não há fórmulas para o luto. Ou seja, o luto é vivido de forma individual e solitária. Por três simples razões:

Não somos iguais. Todos temos traços de carácter e de personalidade que nos distinguem uns dos outros. Alguns mais otimistas e outros mais pessimistas. Alguns mais resilientes e outros menos adaptativos. Alguns mais pragmáticos e outros mais sonhadores.

Não temos o mesmo passado. Cada um de nós teve vivências distintas e únicas que nos deram experiências de perdas e de como lidar com elas. Podemos ter experiências de luto antigas que nos ensinam como lidar com uma perda recente.

Não amamos da mesma maneira. A intensidade do vínculo afetivo vai influenciar a forma e o tempo que demora este processo de luto.

4- Como posso ajudar quem está em luto?

Normalmente quando temos um familiar ou amigo a sofrer por uma perda profunda, ficamos, também nós, aflitos; primeiro porque empatizamos na sua dor, segundo porque ao termos a noção de quanto dói, queremos cuidar dele e aliviar o seu sofrimento. Afinal, cuidamos de quem amamos.

No entanto, se admitirmos que o luto é uma caminhada individual e solitária, em boa verdade, resta muito pouco que nós, família e amigos, possamos fazer para ajudar quem está em luto.

Mas aqui o pouco é muito, isso vos garanto. Basta apenas estar lá. Sem preencher os silêncios com conversas de circunstância, sem fazer juízos de valor, sem estar com pressa para que a dor passe. Basta estar lá pelo outro, ter disponibilidade para ele e escutar, livre de julgamentos, o que ele tem a dizer.

5- Para que fazemos o luto?

Essa é fácil! 😊

Para voltarmos a ser felizes!

Uma amiga uma vez disse-me: “Andamos todos tão apressados a ser felizes que deixamos de ter tempo para as tristezas”. O Luto é o tempo necessário para viver a tristeza do amor que perdemos. Só depois, a alegria voltará a ter espaço para regressar. Quando ambas as emoções encontram o seu equilíbrio, aí voltaremos a sentir a felicidade.

O que aprendi com a minha caminhada pessoal e profissional?

De que a vida é demasiado preciosa para não ser bem vivida.

Por isso, façam o favor de ser felizes!

Conheci a Cristina há cerca de um ano. Tal como desta vez, foi convidada do Diário da Manhã, da TVI e TVI24, foi num dos feriados de Dezembro. E foi melhor sinal que recebemos nessa manhã: valia a pena estar ali, mesmo quando o país estava (quase) todos a dormir. A forma como fala de luto é doce, como que a colorir uma mandala delimitada de negro e que apenas pode ser preenchida por cada um de nós. À medida que vamos conversando, a Cristina vai dando os lápis. Nunca falha na cor de que precisamos. E, ao fim de algum tempo, quando olhamos de novo… uma página está completa. Podemos apreciar, de longe, que está tudo lá. É assim que me sinto quando falo com a Cristina. Transmite paz, serenidade, doçura. E sorri. Sim, para se falar de luto é preciso sorrir. Luto não é (apenas) chorar. Luto é aceitar, erguer a cabeça e agradecer a vida de alguém ou o tempo que passou na nossa (vida). É celebrar! Nem sempre temos capacidade de o fazer. É aqui que a Cristina, com um sorriso imenso, faz magia: uma luz, um sinal, uma palavra. Qualquer coisa pequenina pode significar tanto neste processo… e quem já passou por isto é uma esperança para quem chegou agora.

Sim… todos passamos por isto. Sem excepção. Nesta altura do Natal estamos mais vulneráveis aos sentimentos. E, às vezes, muita vezes…. não escolhemos o que sentimos. Conseguimos, isso sim, permitir que nos faça bem ou mal. Aceitar é fundamental mas… seguir em frente, também!

 

Podem encontrar a Cristina em  www.cfeliz.pt

 

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A festa

Pela primeira vez, em muitos anos, consegui jantar calmamente no Salão Preto & Prata, antes de começar a transmissão da nossa Gala de Natal.

É um momento sempre com alguma formalidade, obriga a alguma organização: além de se tratar de uma transmissão em directo, há todo um protocolo para cumprir para receber e encaminhar convidados para o Salão. Mas, mais que a formalidade, para nós, TVI, é um momento de descompressão de todo um ano, normalmente exigente. 2017 não foi excepção. É bom sair da zona de conforto, a Gala de Natal significa isso. As pessoas com quem trabalhamos todos os dias e que fazem parte da nossa vida, estarem ali também e estarmos todos a aproveitar o momento porque há conversas para as quais não temos tempo todos os dias, não almoçamos nem jantamos juntos muitas vezes e as relações de amizade também se alimentam dessa forma. Do tempo que temos para estarmos uns com os outros.

Nenhuma outra fotografia consegue mostrar o espirito “The show must go on” como esta: começamos pelo dia de hoje… depois da festa, o trabalho. Com 2 horas de sono, lá vamos para o Diário da Manhã e eu tenho sempre energia a mais, resultado: salto do sapato partido às 6h25 da manhã. Conveniente, hein?! Para um programa que acontece em vários sets e com entrevistas de pé veio mesmo a calhar!!!! O espectáculo continua, e continuou. Só as mulheres percebem este meu desespero! Não, homens, não dá para andar com um salto partido. (Adivinhei o pensamento, certo…?)

Estive um bocadinho afastada dos bastidores mas ainda mostro-vos algumas coisas que não se viram na televisão.

Os vestidos, inevitavelmente. Televisão é imagem, faz parte. O trabalho incansável de dezenas de técnicos que se esforçaram muito para que tudo corresse bem e que estavam ali mesmo ao nosso lado. O lado divertido, não peçam para sermos cinzentos, guardem isso para a chuva e nuvens.  A vida já é uma chatice tantas vezes, se não levamos isto a brincar… estamos bem tramados. Amanhã (re)começa tudo outra vez. Para quê carregar a vida às costas?

  

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“Gostava de receber um pack com 500 horas de tempo extra”

A Selfie fez algumas perguntas sobre o Natal e eu respondi. Para ver em www.selfie.iol.pt

1. Natal é…

… é família, é amor.

2. Qual é a memória mais especial que guarda do Natal?

Guardo na memória um Natal que passámos todos juntos em casa dos meus avós, há muitos anos. Éramos miúdos, acho que foi no ano em que os meus avós maternos comemoraram 50 anos de casamento. Foi uma animação.

3. O que é que costuma comer na noite de Consoada e qual o doce favorito?

Não sou nada fã do bacalhau cozido na noite de Natal. Fazemos sempre bacalhau, mas com natas ou à Gomes de Sá, ou outra coisa qualquer. Agora cozido, não! Sou perdida por Bolo Rei, assim em larga escala. É a única coisa que como sempre, todos os dias, várias vezes ao dia!!! Também adoro os mais tradicionais e conventuais, mas como este ano me tornei intolerante aos ovos só vou poder olhar. Lá terei de comer Bolo Rei, que chatice!!!

4. Quantos presentes costuma oferecer e quantos recebe? Pensa e compra com antecedência ou é tudo à última hora? Tenta oferecer sempre presentes personalizados?

Não sou nada certa nos presentes. Este ano ainda não comprei nem pensei em nada. Acho que há dois anos comprei coisas em setembro, imagina. Mas quero fugir das confusões. Vou fazer uma lista e aproveitar que tenho tempo à tarde e antes da hora de almoço e compro tudo de uma vez só. Gosto muito de pensar um presente para cada pessoa. Comprar em larga escala faz-nos iguais e as pessoas não são todas iguais. E tento dar sempre o meu toque.

5. Para quem é o presente de Natal mais difícil/especial de escolher?

Não sei… talvez para os meus pais. Tentamos sempre otimizar e oferecer coisas que façam falta, mas, às vezes… Não precisamos assim de nada em especial, e, nesses casos, é difícil.

6. Qual é o presente de Natal ideal para si?

Eu não sou nada esquisita com presentes e acho que nem nunca troquei nada que me tenham oferecido. Quem me conhece sabe bem o que oferecer. Eu gosto de coisas simbólicas, nada de extravagâncias. Gosto de livros, velas, cremes… Este ano, dava-me jeito receber um pack com 500 horas de tempo extra. Fica a dica!

7. Costuma fazer a árvore de Natal? Sozinha ou com ajuda?

Em minha casa sou só eu, por isso a árvore de Natal é um cone cheio de vitrilhos de várias cores: simples, rápido e limpo! Depois, tenho algumas figuras que vou colocando pela casa, faço um centro de mesa com as velas do advento e acendo uma cada semana, até ao Natal.

8. Quem é que se costuma vestir de Pai Natal? Até quando acreditou?

Normalmente é o meu primo. No ano passado foi o pai dele, o meu tio, porque ele estava a trabalhar e podia não chegar a tempo. Acreditei até aos oito anos, acho. Foi até à noite em que apanhei a minha mãe a por os presentes na chaminé. Os meus pais ainda tentaram mudar-me a ideia, mas não havia nada a fazer. Caiu um mito naquele instante!!!

9. Quando, onde com quem costuma passar o Natal?

O Natal é em família, na terra, enquanto não tiver a minha. Nos últimos anos tem sido em casa dos meus primos maternos, que têm filhotes pequeninos. Passo lá com os meus pais, os meus tios e os miúdos. Este ano vai ser mais triste. Vamos ter um lugar a menos na mesa. Perdemos o meu padrinho, em abril.

10. Qual a figura favorita do Presépio?

O Presépio está todo o ano na minha sala. O Menino Jesus é a minha figura preferida. Um menino frágil, que consegue concentrar a atenção do Mundo, motivar a partilha e distinguir o essencial do acessório. Só quem anda muito distraído pode pensar que o Natal é presentes. Natal é espírito e não oferta. É celebrar a vida, é união e gratidão.