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O que fica dos 33. 2 de 7.

Aos 33… voltei ao Porto Santo. Voltei três vezes: uma em reportagem, outra nas férias e depois no final de ano. A palavra que levo daqui é energia.

Podem não acreditar mas quando se aterra no Porto Santo a alma é inundada da mais profunda paz, da mais real serenidade. É como se o ar que por lá se respira fosse mais puro- ali raramente tenho crises alérgicas, levo a bomba da asma (amiga fiel) apenas para usar em SOS. Nunca foi precisa. Nunca há risco de comer coisas menos boas, o que a terra dá, é do melhor que pode existir: o tomate é doce, a batata doce é mais perfumada ainda, o maracujá-banana é tão sumarento e o physalis é mesmo biológico. Já tentei comprar para trazer mas como-os sempre, antes da viagem. Não dá. Desta vez só evitei mais o bolo do caco mas vinguei-me nas lapas.

Gosto muito desta fotografia porque me mostra a tranquilidade que sempre ali encontro. As férias do verão foram um lavar de alma, um renascer, um começar de novo, a implosão. Nada mais foi igual. No dia que cheguei aconteceu o mesmo de sempre: dormi profundamente e durante muitas horas. Que banal, não é? Parece tão simples desligar, ‘puxar a ficha e perder a corrente’. Mas não é. Precisava muito fazer isso, vinha de um ano extenuante, e ali aconteceu assim. Fiz do colme da praia o meu poiso mais constante e durante 10 dias não fiz rigorosamente nada a não ser descansar. Já conheço de cor as tábuas do passadiço da praia, os puffs do bar, as poltronas do beach club onde tantas tardes me perdi a ler, as espreguiçadeiras onde apanhei escaldões (adormeci ao sol…)… Mas parece que é sempre a primeira vez. É sempre regressar a casa. Ali, a minha profissão não interessa para nada, não importa se tenho uma jóia bonita, a marca dos meus sapatos ou qual o meu peso. Ali importa a essência, a energia, a verdade do que somos e do melhor que conseguimos ser. Ali nem é preciso carro, que se faz tudo a pé. No ano passado, por causa dos ventos fortes no Funchal, a ilha ficou sem abastecimento de comida e outras coisas. Não foi preciso muito tempo para recuar à existência básica, apesar das imensas reservas: precisamos de pouco para viver e de menos ainda, para sermos felizes.

A ilha de Porto Santo é mágica: une pessoas, fá-las encontrarem-se. Conheci ali quem vai comigo para o resto da vida: o Hugo, o Rui, a Andrea, o Bruno, a Dalila, o Miguel, a Margarida, a Andreia, o Roberto, o Nélio.

Ali, o mar é mais azul, de um azul que não encontro mais, de vários tons como se uma paleta fosse colocada na nossa frente, a cada passo na areia. Percorrer os 9 quilómetros de praia é algo único. Neste momento em que vos escrevo, sinto o ar no cara, ouço as pessoas e tenho areia debaixo dos pés. Porto Santo é um postal verdadeiro que acontece perante os nossos olhos em tempo real: miradouros, paisagens completamente diferentes entre o Norte e o Sul da ilha, o Ilhéu da Cal e o do Farol, fragatas afundadas para mergulho, passeios a cavalo, um pontão digno de filme, tratamentos com areia (psamoterapia) e com água (talassoterapia, a maior do país) que nos fazem sentir nas nuvens, vão por mim. Nas nuvens! Nesta ilha parece que nunca faz frio, ao ponto de se tomar banho no final de ano, o sol não engana! Depois há a parte segura: as coisas ficam todas e ninguém mexe, no espaço de 100 metros não há toalhas à nossa volta e… a pista do aeroporto chega de uma ponta à outra da ilha, já imaginaram sítio mais seguro para aterrar? Morro de medo da pista do Funchal, pronto, já disse!

A ilha de Porto Santo foi descoberta em 1418, por João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo mas o nome mais sonante é o de Cristóvão Colombo. Diz-se, sem certezas históricas da data, que Colombo passou pela ilha para se refugiar de um temporal e… apaixonou-se. Era por isso um ‘porto seguro’… E para mim também passou a ser. Porque será?

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Porto Seguro

Porto Santo foi avistado há 6 séculos. Chamaram-lhe Porto Seguro por ter sido encontrado depois de uma tempestade. Dizem que Cristóvão Colombo se perdeu por lá… eu também mas cheguei algum tempo depois.

Há um tempo para tudo, diz uma passagem da Bíblia e é bem verdade. Há um tempo para tudo… como houve um tempo para eu conhecer esta ilha. Acredito que nada acontece por acaso: as pessoas que conhecemos, as decisões que tomamos, os locais que visitamos. Porto Santo escolhe-nos, envolve-nos. Podem não acreditar mas nesta ilha eu não tenho crises de asma, não tenho insónias, não tenho frio.

No verão estive ali na altura dos ventos fortes que atingem o Funchal, várias vezes por ano. Durante esse tempo, nada chegava a Porto Santo: nem comida, nem jornais, nem medicamentos, só pessoas e vindas do continente. Como nos meses de inverno em que o Lobo Marinho pára para revisão e deixa de fazer as viagens e carregar mantimentos. Os habitantes comem apenas o que a ilha dá, o que a terra produz. Eu senti isso este ano: voltei ao passado, quando também não havia assim tanta fartura de coisas. Ficamos limitados e… soubemos viver. Não é que afinal… é preciso muito pouco para existir? Admiro muito as pessoas que sabem viver com muito e com pouco, eu fui habituada assim também, mas os tempos são outros. O ‘muito’ e ‘pouco’ são completamente  diferentes. Naqueles dias voltamos aos mínimos e recordamos porque é que aquela terra é tão especial: porque ali não é preciso nada para ser feliz. Ali há tudo o que faz falta, nas quantidades necessárias. Até as pessoas são as necessárias… cerca de 4 mil.

Há tantas coisas para vos mostrar de Porto Santo que hoje deixo só as fotografias de um amanhecer único e mágico. O sol nasceu para mim. Espero que consigam ouvir o mar… e ficar em paz.  

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A Teresa e o 9C

O lugar da Teresa era o mesmo que o meu. Quando cheguei ela já estava sentada e, rapidamente, se mudou e chegou à janela. O rosto pareceu-me familiar mas a verdade é que nunca a tinha visto.

Ela dormiu quase toda a viagem para o Funchal. Acho que eu também… travámos conversa apenas na altura da refeição, uma sandwich de ovo e um pastel de nata. Precisavam ver a cara dela quando devolvi o bolo e retirei o ovo do pão: ‘é vegan?!’, perguntou muito chocada. ‘Não’, respondi, ‘sou intolerante’.

Depois dela ter achado aquilo a coisa mais estranha da vida (confesso que eu também, toda a vida comi ovos) lá me contou que os pais viviam no continente mas a mãe era madeirense, que estudava no Colégio Moderno e tocava violino. Vinha passar férias ao Funchal e principalmente, a Porto Santo. Ah, e tinha estado fora de casa até à meia noite, na véspera. Uma loucura para uma menina de 14 anos.

Pegámos no violino, saímos do avião e fomos recolher bagagem. Estavam uns miúdos franceses, muito excitados  com o momento (ponham muito nisso!). Deviam ter a idade dela mas a Teresa olhou para mim e, com toda a propriedade de uma menina crescida, disse “bolas, já reparou que as malas são mais educadas que as pessoas… ?”.

Naquele instante, eu agradeci que aquela miúda estivesse sentada no lugar que estava marcado para mim. (Será que estava mesmo…?)