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Sorria, está a ser filmado

Alguém pensa nos dias maus?

Alguém pensa no que custa levantar a cabeça, inspirar e falar?

Alguém pensa que sorrir… pode custar tanto? Encarar as pessoas, a família, o público, o chefe, o país, a audiência.

Alguém alguma vez pensou que esse é um dos maiores desafios desta vida?

Sorrir. Devia ser tão simples, tão natural, tão espontâneo, tão generoso.

Alguém alguma vez calçou os sapatos do outro? O maior acto de humildade- colocar-se do outro lado. Sentir o que se sente. Sentir as pedras todas do caminho.

Alguém alguma vez pensou que se daria a vida para não ter de sorrir ali, naquele instante, naquela situação?

Às vezes… ninguém sabe. Ninguém imagina o que custa sorrir, apenas.

 

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Saber sair antes do fim

Saber sair.

Uma virtude maior que saber dizer ‘não’, ainda que as duas se unam.

Perceber.

Quando estamos a mais, quando a nossa presença já não faz qualquer sentido, estar ou não é igual, é banal, é hábito.

Quando o nosso amor já não significa nada, já não move nenhuma montanha, já não resolve o indecifrável, já não faz a diferença nos dias maus, aqueles em que só queremos voltar a casa.

Quando não nos procuram, não buscam nos detalhes, nas mensagens de telemóvel ou no registo das ‘chamadas efectuadas’ o nosso número até já não aparece há tantos dias.

Quando não querem o nosso abraço, não procuram o nosso refúgio, o nosso calor, o nosso fôlego, as nossas palavras.

Quando a vida já não faz sentido connosco, o futuro já não aponta para aquela direcção, o pensamento já não vai mais além.

Quando uma tarefa já não nos preenche, não nos motiva, pesa, é dor, causa muito sofrimento, mesmo que seja o sonho de uma vida.

Quando as campainhas soam, quando os alertas disparam e nós ignoramos, ignoramos e voltamos a ignorar.

Até ao dia em que o Mundo cai, o corpo cede e a mente não ajuda.

Deixa ir. Entregar. A lucidez.

Quando é preciso saber sair antes do fim.

Perceber que uma vida, uma tarefa, um ciclo acabou. É, provavelmente, das questões mais aterradoras, para mim.

Respirar, levantar a cabeça e seguir, qualquer que seja o destino, qualquer que seja a previsão, não importa o caminho. Importa é a certeza, a fé de que tudo começa e acaba. Menos o amor, que tudo pode. Mas não chega.

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Onde é o paraíso?

Para chegar ao Casalinho passamos pelas estradas mais movimentadas até chegar às mais estreitas, que já são de alcatrão. Até chegar ao Casalinho, o calor aperta, lá aperta mais. A vegetação tomba para a estrada, os carros é que têm de se desviar. Os pinheiros cresceram desordenados depois dos incêndios de 2003, a memória tem de voltar a este ano (também) tão difícil para Portugal, ainda que 2017 tenha batido recordes de área ardida. Os pinheiros vêem-se e cheiram… tão bem. Há muito tempo que não sentia este odor, esta natureza tão… natural.

Cheguei ao Casalinho através do Miguel, um querido amigo, que quis mostrar-me das melhores coisas que tem. O ‘Refúgio do Raposo’ era a casa dos avós (Raposo, de nome) e os país resolveram recuperar tudo e melhorar, para deixar aos filhos algo mais que dinheiro: deixar-lhes valores (mais, ainda), um património com sentido, com verdade, evocar a história da vida de todos. Eu tive a sorte de o partilharem comigo. Sou do campo, muito do que está ali eu conhecia, valorizava, mas são as pessoas que contam. O silêncio, os passarinhos, as casas de xisto, o passeio na carrinha de caixa aberta, o queijo de cabra com mel (não, hérnia, isto não aconteceu!) têm mais sentido com esta família fantástica.

O ‘Refúgio do Raposo’ é um alojamento local, perto de Proença-a-Nova, decorado com tanta simplicidade que não tem falta nada, muito menos de bom gosto. O Miguel é apaixonado por astronomia, vi lá o eclipse e tive direito a explicação detalhada. Indescritível! Também por causa disto, cada casa tem o nome de uma estrela. A minha era Altair.

Muito e muito obrigada. Foi um renovar de alma, em 2 dias perdi 10 anos, dizem eles. E eu acredito.

(Esta fotografia fantástica é do Paulo Ferreira (PTLAPSE), as outras são minhas! Não tenho um alcance tão grande! )

      

 

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O ÚLTIMO diário da bactéria

Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste. Morreste.

Tenho de dizer 10 vezes para que se torne real na minha cabeça como está no papel da análise e no relatório da endoscopia. Morreste, HP e depois da tua morte não há mais nada. Sou-te sincera, ainda não sei bem como reagir a este resultado. Recebi um e duvidei, quis esperar pelo segundo, tu és perita em ‘falsos negativos’. Até já comprei um presentinho para assinalar o momento mas continuo a não encomendar as flores para o teu enterro nem marquei a data. É melhor fazer isso depressa. Aceitar. Com o velório, o funeral e o enterro, a noção da tua memória fica mais fácil. Como Iñaki Piñuel me ensinou a fazer, sobre as pessoas más que habitam a nossa vida, em algum momento, Tem dado jeito, confesso. Agora terei de o aplicar a ti.

Deixaste-me apática. Nestes 7 longos meses desde o teu diagnóstico, aconteceu tudo. 5 antibióticos, enjoos, náuseas, mal estar, cansaço. Mudei a vida, mudei os hábitos. Acalmei e descansei mais. Tentei ser melhor para mim e cuidar-me, para ser mais fácil. Não penses que me estou a fazer de coitadinha mas, sim, estou a queixar-me. Quem dera que apenas eu tivesse sentido isto, afinal, fizeste mal a tanta gente e vais continuar por aí. Infelizmente.

Sabes, nestes dias looooongos em que te carreguei disse muito mal de ti e da vida. Fartei-me de ti muitas vezes. Chamei-te nomes feios e desejei que desaparecesses, NA HORA. Além da minha família, só duas pessoas acompanharam esses momentos mais pesados. Essas alturas em que nem os pensamentos eram bons, eles ajudaram a erguer a parede invisível que bloqueia a parte mais negra da mente humana.

Morreste. Mas foste filha da mãe. O teu fantasma vai ficar para sempre porque deixaste (muitos) outros problemas aqui. O carácter crónico não se muda. Vai ser uma condição para o resto da vida. A parte boa é que há um diagnóstico. Sim, depois de desapareceres as queixas mantinham-se e tinha de haver uma razão. É uma amalgama de chatices no estomago: uma hérnia, grande demais que já está a ser altamente incómoda e mais umas tretas. Chega.

SA-TU-RA-DA.

Não sei que passa de uva me caiu da mão na noite da passagem de ano: se a da sorte ou a da saúde. A da resiliência não foi, com toda a certeza. A vida não é sempre a perder… mas 2018 já podia começar, hein?! Vamos a isso?

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As maiores mentiras que saem da nossa boca

Quantas vezes já não dissemos coisas que não são verdade? Algumas com mais piada que outras, é um facto, mas todos as identificamos. Eu assumo, às vezes, em nome da diplomacia e bom ambiente e a favor da minha agenda absolutamente desorganizada… recorro a algumas. 1 ou 2, vá. 3… e não se fala mais nisso.

1- “Já estou mesmo a chegar”.

2- “Adoro iscas”.

3- “Dou-me com todas as pessoas”.

4- “Já enviei esse e-mail, como não recebeu?”.

5- “Sim”.

6- “Vamos combinar um café, claro”.

7- “Depois ligo-lhe”.

8- “Adorei a sua apresentação”.

9- “Percebi tudo o que disse, falamos a mesma linguagem”.

10- “Gosto muito de ti”.

Been there, done that.

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A da moda?! A sério?!

HP(coisa mais querida da minha vida… ou então não!), há muito tempo que não conversamos por isso vamos lá falar aqui as duas… Agora és a bactéria da moda?! A sério, não me faças rir?! Andas a incomodar ainda mais pessoas? Quando é que isto acaba? Já não bastava seres chatinha como ainda por cima és uma ‘maria vai com todas’. Não sei que te faça, a sério.

Queria acreditar que eu seria daquelas que resistia à tua presença que aguentava e suportava, muito em silêncio, aquilo que tu bem decidias fazer… mas afinal, não: tenho recebido tantos mas tantos relatos de pessoas que estão contigo pelos cabelos. E conheço muitas que nem sequer conseguem o antibiótico porque está esgotado. Sinceramente…

Deixa as pessoas ou, pelo menos, não sejas chata. Deixa-as fazer a vida normal, não provoques mal estar, indigestão. Vá lá, peço-te. Se podes ficar aí sossegada por que não ficas? Que isto seja um assunto só entre nós duas e que ainda não está resolvido, eu bem sei. Não penses que eu ando distraída, tenho-te ‘debaixo de olho’.

Mas olha… já gostei menos de ti… aprendi e aceitei. As pessoas não se mudam, todos os dedos da nossa mão são diferentes, não é…? Quem disse que com as bactérias seria diferente?! Vá, deixa lá a tua marca na minha vida. Eu depois mostro-te o caminho da saída. Em direcção à rua. Tipo labirinto.

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Os dias não se repetem. E é pena.

Não podemos nada contra o tempo perdido, o dia passado, o que já foi. Há dias, todos os dias, que não se repetem e há pena nisso, há magoa pelo bom que não será mais, há tristeza pelo mau que nos tirou em cada minuto, 60 segundos de felicidade.

Encontramos as nossas pessoas e, passados tantos anos, elas são as mesmas, não mudaram. Elas são e nós somos o que deixamos há 15 anos. E isso nunca terá preço.

Os dias têm sido bons. O sol tem sido generoso como que a recompensar por tudo o que passou. A preparar para o que aí vem, que é tanto, e faz encolher o corpo todo. Ao mesmo tempo obriga a encher o diafragma, a levantar a cabeça, sorrir e agradecer… Ainda que a saga não tenha terminado. Sem medos, sem energias negativas. Até porque o cantar dos passarinhos e das cigarras não deixa espaço para isso.

Deus dá as maiores batalhas aos seus melhores soldados. Em frente! Siga!