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Vá pelas escadas

34. São 34 degraus desde a entrada do prédio até à entrada da minha casa.

Um dia decidi que ía usar o elevador apenas nos dias em que os sacos de compras pesam demais até para uma corajosa como eu ou quando venho de casa da mãe e trago tudo e mais alguma coisa.

Dizem os especialistas que são precisos 21 dias para criar um hábito, para que corpo e mente se habituem a uma rotina. Outros estudos revelam que ao fim de 6 meses a praticar exercício físico, as pessoas estão mais aptas para tomar decisões. Acredito que sejam mais, especialmente naqueles casos em que se sente dor, física ou emocional, por qualquer tentativa de mudança. Mas não os ponho em causa.

Subir e descer estas escadas funciona para mim como o momento de reflexão, do que já fiz e ainda falta mas principalmente, mostra-me evolução. Prova-me que depois de um há sempre o outro. Que a evolução é possível, que há sempre um lanço de escadas pronto a ser percorrido, até ao nosso patamar. Até chegarmos à nossa porta. Se eu quiser chegar à minha porta tenho de os subir, não há hipótese.

Mas lembra também que todos os prédios têm um último andar. Que não vale a pena correr escada acima, que tudo acaba. Tudo tem um limite. E até o conseguimos ver, cá de baixo.

Em Nova Iorque os prédios até 7 andares não têm elevador. Em Portugal, esta é das primeiras características que procuramos, logo a partir do 2º andar. Acho maravilhoso.

O caminho pode ser sofrível, nos primeiros dias será, seguramente. Depois, as pernas habituam-se. Os olhos já não espreitam a porta do elevador. E já nem nos lembramos de como se faz.

34 degraus.

Passaram 8 meses desde que comecei a fazê-lo.

Às vezes, quando entro no elevador, nem sei qual o número do meu andar.

 

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Onde é o paraíso?

Para chegar ao Casalinho passamos pelas estradas mais movimentadas até chegar às mais estreitas, que já são de alcatrão. Até chegar ao Casalinho, o calor aperta, lá aperta mais. A vegetação tomba para a estrada, os carros é que têm de se desviar. Os pinheiros cresceram desordenados depois dos incêndios de 2003, a memória tem de voltar a este ano (também) tão difícil para Portugal, ainda que 2017 tenha batido recordes de área ardida. Os pinheiros vêem-se e cheiram… tão bem. Há muito tempo que não sentia este odor, esta natureza tão… natural.

Cheguei ao Casalinho através do Miguel, um querido amigo, que quis mostrar-me das melhores coisas que tem. O ‘Refúgio do Raposo’ era a casa dos avós (Raposo, de nome) e os país resolveram recuperar tudo e melhorar, para deixar aos filhos algo mais que dinheiro: deixar-lhes valores (mais, ainda), um património com sentido, com verdade, evocar a história da vida de todos. Eu tive a sorte de o partilharem comigo. Sou do campo, muito do que está ali eu conhecia, valorizava, mas são as pessoas que contam. O silêncio, os passarinhos, as casas de xisto, o passeio na carrinha de caixa aberta, o queijo de cabra com mel (não, hérnia, isto não aconteceu!) têm mais sentido com esta família fantástica.

O ‘Refúgio do Raposo’ é um alojamento local, perto de Proença-a-Nova, decorado com tanta simplicidade que não tem falta nada, muito menos de bom gosto. O Miguel é apaixonado por astronomia, vi lá o eclipse e tive direito a explicação detalhada. Indescritível! Também por causa disto, cada casa tem o nome de uma estrela. A minha era Altair.

Muito e muito obrigada. Foi um renovar de alma, em 2 dias perdi 10 anos, dizem eles. E eu acredito.

(Esta fotografia fantástica é do Paulo Ferreira (PTLAPSE), as outras são minhas! Não tenho um alcance tão grande! )

      

 

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Deja Vu.

Não pensava, sinceramente, que veria imagens parecidas com as que registámos no ano passado, em Pedrogão Grande, durante os incêndios. Foram tempos complicados, de cobertura noticiosa. Fiquei em estúdio, não fui para o terreno mas nem por isso me consegui distanciar da imagem daquela estrada nacional onde tantas pessoas morreram. De forma voluntária, foi inevitável imaginar a aflição de alguém que percebe que os dias acabaram, que sente o fim, que depois daquilo… não haverá nada. Ter consciência é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior que nos pode acontecer, na vida. 

Ao ver as imagens da Grécia tive um arrepio. Achei que não iria ver isto de novo e… enganei-me.

Não vos consigo explicar o que se sente ao ler e repetir “26 pessoas pessoas foram encontradas carbonizadas, abraçadas”. Não consigo. Isto é um filme de terror.

13 meses separam as imagens.

Grécia, Julho 2018

Pedrogão Grande, Junho 2017

 

Fotografias: Google.pt

 

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Ele e os outros.

Por que era Mandela tão precioso, tão indispensável, tão incisivo e tão capaz? Provavelmente por que não o queria ser… por que era-o, apenas.

Tinha a palavra, o discernimento, a lucidez, a resiliência e a ponderação de quem esteve quase 30 anos num rectângulo de poucos metros quadrado. Inocente. Ele sabia que o poder não se conquista, já, com o recurso ao conflito, à guerra, à acção bélica. Sabia que as pessoas só precisam de pessoas. Ele sabia que o exemplo e a acção é que fazem toda a diferença.

Em todos os dias da nossa vida. Afinal, alguns heróis podem ser reais.