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Uma coisa de cada vez

Sempre acumulei funções. Mais ou menos, a minha vida tinha sempre espaço para mais qualquer coisa: trabalho de madrugada, 1000% em cada emissão, trabalhos da faculdade, pesquisa para a tese, consulta de obras, conferências, comunicações, reuniões, ajudar alguém que precisava de mim, em qualquer lugar. A verdade é que saía de casa antes das 5 horas e voltava, às vezes, às 20 horas. O ritmo era alucinante mas isso não era mau, estava a fazer coisas para mim, que me preenchiam e completavam. Os dias passavam e a minha televisão não funcionava, fazia tudo on-line, via tudo nos sites. Optimizava o tempo. Pensava eu que era organizada quando me perguntavam ‘como é que consegues?’.

Mais compromissos, mais responsabilidade e… menos tempo. Era engolida pela ansiedade de não ter mais de 10 minutos entre cada obrigação e uma fila de trânsito era um caos para mim. Dava, dava sempre. Até ao dia em que não dava mais. Porque alguma coisa me ia fazer parar.

Começou por ser uma gripe mas depois foi a HP. Eu não percebi logo a importância que teve na minha vida. Era preciso fazer um tratamento, certo, mas poderia aproveitar algum tempo para resolver questões do doutoramento, por exemplo. Não. Pensei que podia escrever enquanto estivesse em casa… mas também não. Em vez disso… parei. Fiz zero. Não podia. Não conseguia. Provavelmente dormi 18 horas por dia. O máximo que consegui foi escolher revistas e jornais e sair duas vezes para comprar comida.

A questão do doutoramento foi possivelmente o ‘click’ que me faltava. O calendário dava conta que era preciso terminar um pré-projecto para entregar a 10 de Fevereiro e defender no dia 21, já estava tudo marcado, até já tinha escolhido a hora. Adiar este momento para Julho, para dali a 6 meses, significava um fracasso para mim. Todas as ideias na cabeça, um documento já meio revisto… e agora?! Eu que sempre tinha feito tudo à primeira, que agora até executava melhor e com mais rigor… adiar um prazo? Eu, que tinha feito uma pós-graduação, um mestrado e metade de um doutoramento, com mérito, neste horário ia sucumbir agora? Não. Não e não! É claro que vou conseguir!

Não consegui. E pior… não consegui fazer nada para alterar isso. Porque a cabeça não acompanhou. Este tornou-se, possivelmente, o motivo que eu precisava para mudar toda a minha vida. Toda mesmo. Digo-vos isto com o maior sorriso que posso ter.  

Deixei de correr. A máxima “Só corro para apresentar notícias” já me acompanha há algum tempo mas faz o triplo do sentido, agora. Deixei de tentar fazer tudo, estar em todo o lado. Estou onde preciso de estar mas, acima de tudo, onde consigo estar. E não é um estar a qualquer preço. É estar bem, aproveitar, desfrutar do momento, das pessoas que estão comigo, que também querem aproveitar a minha companhia. Estou ali e só ali. Não acumulo funções: se não consigo, não faço. Além do meu trabalho em que continuo a 1000%, dessa parte não abdico, lamento, do ginásio porque é cada vez mais importante cuidar de mim e tratar destas coisas todas, só faço uma coisa por dia. Entenda-se, uma coisa de trabalho extra. E permito-me relaxar, estar com mais pessoas, almoçar com amigos, lanchar, passear, fotografar. Tenho tempo para tudo, estou cada vez mais focada e mais orgulhosa de mim. Não invento, sei os meus limites porque toda a gente os tem e eu sou humana, que óptima notícia! Mas… não sou imortal, é a parte chata, fizeram questão de mo ‘lembrar’ há uns dias.

Poucas coisas na vida podem ser mais libertadoras que uma decisão correcta. Tomei várias nos últimos tempos. Com coragem, humildade mas muita vontade de viver.

Eu já não quero ser profundamente eficiente. Eu quero é ser profundamente feliz.