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Uma C.A.S.A. chamada rua

A ajuda a pessoas sem abrigo, sem Lisboa, esteve marcada por 2 ou 3 vezes  mas só aconteceu agora. Há muito que queria fazê-lo, não por caridade ou caridadezinha (são coisas BEM diferentes) mas porque queria ajudar, temos todos essa capacidade. Ajudar não apenas dar dinheiro, dar tempo, estar com as pessoas, ouvi-las, perceber de que são feitas… isso, às vezes, tantas vezes… é a melhor ajuda que se pode dar a alguém.

Associei-me à associação All Humans, que recolhe bens bens de higiene, que fazem tanta falta e que as pessoas que vivem na rua tanto necessitam. Às vezes nem pensamos nisto, a alimentação é, inevitavelmente, a primeira lembrança que temos mas, acreditem, é mesmo muito importante: uma escova ou pasta de dentes, uma lâmina para desfazer a barba, um desodorizante, um sabonete… a história que mais me tocou tem que ver com a distribuição destes bens.

 

A All Humans associou-se ao C.A.S.A., Centro de Apoio aos Sem Abrigo, que já distribui refeições. No fundo, é aproveitar este conhecimento das pessoas que mais precisam de ajuda e dos locais onde estão. O ponto de encontro foi às 19h30, estava um calor infernal de agosto em outubro, e começámos a carregar os carros. Como podem ver, não é preciso muita gente para ajudar, é preciso é gente! As rondas da All Humans estão distribuídas por zonas- Oriente, Saldanha, Cais do Sodré e Santa Apolónia, onde fui. Quem precisa está à espera de quem vai ajudar mas há sempre alguma dúvida se aqueles dois carros que chegam querem mesmo ajudar ou não… é legítimo, claro que é. Uma das senhoras que conheci lembrou que alguém pegou fogo ao sítio onde dormiam. Pura maldade.

 

Debaixo do viaduto distribuímos muitas coisas mas acabamos por ir mais à frente, a pé. Algumas pessoas faziam o jantar numas brasas ateadas perto de uma parede e tentavam esquecer que vivem numa carrinha há cerca de 1 mês.

“Ah, mas eu vou sair daqui que já estou a trabalhar. Só preciso de arranjar um quartinho”, disse um desses homens. Eram 4 homens e uma mulher.

Lisboa é uma cidade de contrastes, como o da fotografia… A Lisboa dos turistas e dos grandes eventos não pode chegar os olhos a quem ‘mora’ ali ao lado.

Fizemos mais uma paragem e depois chegamos frente à estação. O primeiro carro a ser procurado é sempre o da comida mas depois de perceberem o que estávamos a distribuir, chegaram-se a nós. Distribuímos quase tudo: o que sobrou de comida deitaram fora mas os bens de higiene ficam guardados.

Uma senhora, muito velhinha, muito pequenina insistiu muito para lhe dar um sabonete. Não havia sabonetes soltos e não podíamos abrir sacos já compostos, os bens tinham de chegar para todos. A senhora insistiu muito e acabou por ir embora… quando ela se afastou e eu uma das coordenadoras olhamo-nos e percebemos: estavamos no fim da noite e íam sobrar coisas. Abri um saco e corri atrás da senhora. Ela segurou o sabonete como se fosse feito de ouro, pegou-me nas mãos e agradeceu muito e depois disse-me: ‘Dê-me um beijinho. Eu sou assim e sou velhinha mas não tenho nenhuma doença. Deus a ajude muito’…

Quase que fiz directa naquela noite mas depois disto o meu sono passou a ser uma coisa absolutamente relativa.

A All Humans precisa de ajuda, naturalmente. Os bens distribuídos são recolhidos em empresas ou resultam de donativos de pessoas. Se não sabem o que fazer este Natal (mais que não seja isso…) ajudem estas pessoas!

Passem aqui:  www.facebook.com/associacaoallhumans/

(Comprometi-me, obviamente a tirar fotografias que apenas identificassem os sítios e nunca as pessoas. Todos têm direito à privacidade e, além do mais, eu estava ali para ajudar, tinha coisas para fazer. As fotografias são, por isso, poucas e dissimuladas. E é assim que tem de ser.)